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Cotas universitárias: uma questão de visão


Tentarei abordar o assunto partindo de uma visão diferente. Ao invés de usar argumentos anti-cotas ou pró-cotas, elencarei motivos pelos quais acredito que seja a dificuldade do debate entre esses dois grupos.

Para tanto, utilizarei como base uma resenha lida sobre o livro de Thomas Sowell, um baluarte do conservadorismo americano, escrita no New York Times, chamado de “Um Conflito de Visões”

Não por acaso a palavra visão apareceu na primeira linha do texto. Ela será o elemento fundamental do raciocínio. O Sr. Sowell afirma que todos nós possuímos uma visão que não é dependente necessariamente de validação ou lógica empírica. A visão existe antes mesmo que a lógica comece. É um “sentimento de causa”, é um grande palpite ou “sexto sentido” nos quais teorias sociais e ideais políticos são criados. E com são pré-racionais e não articuladas são extremamente difíceis de serem desalojadas.

Para o autor, existem dois tipos de visões: as confinadas e as não confinadas. Logicamente essas visões básicas são opostas. A confinada trata do homem como um indivíduo irremediavelmente falho. O máximo que esse indivíduo consegue é prosperidade frágil e uma paz incerta, isso seguindo a sabedoria coletiva da sociedade e da tradição (que o autor chama de conhecimento sistêmico), melhor do que conseguiria procurando o paraíso na Terra.

A visão não confinada rejeita a idéia de limites no homem. Com vontade e razão pode conseguir resolver todos os problemas sociais. Como podemos supor, os movimentos pró-cotas baseiam-se em uma visão não confinada.

O conflito entre as duas visões se aproxima daquele característico entre direita e esquerda. Para Sowell os campeões da visão confinada são os intelectuais conservadores – Adam Smith, Thomas Hobbes, Alexander Hamilton, Edmund Burke, Oliver Holmes, Friedrich Haeyk, Milton Friedman. A melhor expressão dessa visão, de acordo com o Sr. Sowell é de Adam Smith: “a paz e a ordem da sociedade são mais importantes até que a ajuda aos miseráveis”.

Os tipos não confinados – William Goodwin, Rousseau, Marquis de Condorcet, Thomas Paine, Thorstein Veblen, George Bernard Shaw, Laurence Tribe, John Kenneth Galbraith – ficariam ao lado dos miseráveis em detrimento inclusive da paz.

A visão não confinada busca sinceramente a melhora social, enquanto a visão confinada baseia-se na missão de cada indivíduo. Homens de negócios possuem a missão de proteger os interesses dos acionistas, não a melhora da sociedade, de acordo com a visão confinada. Assim como o professor que prefere promover o intelecto de seus alunos e não guiá-los a uma ideologia ou conclusões específicas que ele imagina ser sinceramente o melhor para a sociedade.

Dessa mesma maneira, jornalismo militante e a teoria da libertação não são bem vistas por pessoas com a visão confinada, pois são consideradas uma utilização errada das atividades confiadas.

Igualdade é buscada nas duas visões, porém de maneira diferente. Igualdade de resultado é favorecida na visão não confinada, enquanto igualdade no processo é buscada na visão confinada. Aí reside basicamente a diferença daqueles que apóiam as cotas dos que não apóiam as cotas.

Os homens, ou ao menos uma elite, é capaz de repartir igualmente os benefícios sociais para todos para a visão não confinada. A visão confinada até concorda, mas acha que as coisas tendem a piorar se tentar. A visão não confinada diz que os homens, somente com a razão, podem fazer um mundo melhor. A visão confinada diz que os homens não possuem conhecimento para tanto.

Podemos dizer que a dificuldade do debate (pró-cotas x contra-cotas), baseia-se basicamente, nos estilos diferentes de visão e até mesmo a utilização da razão. Não é incomum encontrar debatedores pró-cotas concordando com todos os argumentos utilizados por debatedores contra-cotas, porém sem mudarem sua opinião. É comum, também, encontrar debatedores contra-cotas que não conseguem entender os argumentos, que na maioria das vezes não são baseados na razão e sim na visão pré-racional e sentimental, dos debatedores pró-cotas.

Reconheço que possuo uma visão confinada do ser humano. Reconheço também, minha dificuldade em compreender argumentos e atitudes de pessoas pró-cotas. Tenho dificuldade de entender como alguém pode defender uma medida que mesmo, pelo menos a grande maioria, os pró-cotas definem como ineficaz e ineficiente para resolver o problema principal que é a distância entre negros e brancos.

Da mesma forma, vejo que há uma dificuldade enorme para os pró-cotas compreenderem argumentos como que diz que cotas impostas pelo Estado são medidas racistas e dividem desnecessariamente a visão do Estado sobre os indivíduos.

Talvez ninguém esteja certo, talvez todos estejam certos. Provavelmente esse assunto será decidido pela visão de mundo dos magistrados do STF. Mas a compreensão dessas visões ajuda para tentar ao menos entender que mesmo quem não concorda sua visão não o faz por maldade, racismo ou por simples vingança racial. O faz por possuir, sinceramente, uma visão diferente da sua.

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  1. Clever Mendes de Oliveira
    agosto 31, 2009 às 2:26 am

    Pablo Vilanovo,
    O problema na análise do Thomas Sowell é considerar o passado como algo fixo lá atrás, esquecendo que um dia o passado era presente. Não discuto que a visão confinada é própria de intelectuais conservadores. A questão é, no tempo de cada um dos intelectuais hoje vistos como de visão conservadora, cada um teria sido uma visão confinada ou uma visão não confinada? Um Milton Friedman eu sempre considerei um intelectual conservador e de visão confinada. Já o Adam Smith, um tanto desatualizado nos tempos modernos, em especial no romper do Séc. XXI, parece-me que possuia, ao tempo dele, uma visão não confinada. E como ele há outros.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 30/08/2009

    • vilarnovo
      setembro 2, 2009 às 1:19 pm

      Entendo seu comentário, mas será que devemos “qualificar” as visões de acordo com suas antíteses da época? Por exemplo os Fouding Fathers americanos (Jefferson, Franklin, Washington, Adams e outros) possuim mais familiaridade com Smith que Robespierre por exemplo. Todos esses quebraram regras de suas épocas, e regras bem parecidas, mas seus tipos de visões do ser humano eram basicamente diferentes.

      De qualquer forma, obrigado pela sua mensagem.

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