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O dogma dos nossos tempos – Por Frank Chodorov (Parte 2)


O coletivismo é mais que uma idéia. Sozinha, uma idéia não é nada
mais que um brinquedo especulativo, um ídolo mental. Já que, segundo
o mito, a sociedade suprapessoal é repleta de possibilidades, o
melhor a ser feito é pôr o mito em ação, energizar sua virtude. O
instrumento para isso é o Estado, que transborda energia política e
anseia por usá-la nesta gloriosa aventura.

O estatismo não é uma invenção moderna. Mesmo antes de Platão, a
filosofia política já se preocupava com a natureza, a justiça e a
legitimidade do Estado. Porém, enquanto os pensadores especulavam
sobre o assunto, as pessoas comuns aceitaram a autoridade política
como um fato com o qual se deve conviver e pararam por aí. Apenas
recentemente (exceto, talvez, nos momentos em que a Igreja e o Estado
se uniram, sustentando a coerção política com sanções divinas) que um
grupo de pessoas tem conscientemente aceitado a tese hegeliana que
diz que “o Estado é a substância geral da qual o indivíduos não são
mais do que acidentes.” É essa visão geral do Estado como
uma “substância”, como uma realidade suprapessoal investida de uma
competência que nenhum indivíduo pode reclamar para si, que é a
característica principal do século XX.

No passado, a inclinação era ver o Estado como algo com que era
preciso lidar, mas que era completamente estranho. Convivia-se com o
Estado da melhor forma possível, temendo-o ou admirando-o, esperando-
se fazer parte dele e gozar seus privilégios ou mantê-lo distante,
como algo intocável. Alguém dificilmente consideraria o Estado a
própria sociedade. As pessoas tinham de sustentar o Estado – não
havia como evitar os impostos – e tolerar suas intervenções como
intervenções e não a base mesma da vida. O Estado também estava
satisfeito com sua posição, separado e acima da sociedade.

Atualmente, estamos dispostos a destruir qualquer distinção entre
Estado e sociedade, conceitual ou institucional. O Estado é a
sociedade; a ordem social é, na verdade, um apêndice do establishment
político, dependendo deste para a comunicação, educação, saúde,
sustento e todas as coisas que remetam à “busca da felicidade”. Em
tese, se nos basearmos nos livros de economia e ciência política,
essa integração já é perfeita. Na operação dos assuntos humanos,
embora muito se diga sobre o conceito de direitos pessoais
intrínsecos, a tendência de invocar o Estado para a solução de todos
os problemas da vida mostra o quanto já abandonamos a doutrina dos
direitos, com a dependência de si mesmo que lhe é correlativa, e
aceitamos o Estado como a realidade da sociedade. É não a teoria, mas
essa integração de fato, que distingue o século XX de seus
predecessores.

Um indicativo de quão longe essa integração já foi é o total
desaparecimento de qualquer discussão do papel do Estado enquanto
Estado – discussão da qual participaram as melhores mentes dos
séculos XVIII e XIX. As inadequações de um regime em particular, ou
de seus componentes, estão sob constante ataque, mas não há críticas
ao Estado enquanto instituição. O consenso geral é de que o Estado
funcionaria perfeitamente se as “pessoas certas” estivessem em seu
comando. Os críticos do New Deal não percebem que suas deficiências
são inerentes a qualquer Estado, sob qualquer governo, nem que quando
o establishment político obtiver força suficiente um demagogo
surgirá. A idéia de que esse aparato de poder é realmente inimigo da
sociedade, de que os interesses dessas duas instituições estão em
oposição, é simplesmente impensável. Quando mencionada, a idéia é
desqualificada como se fosse algo “fora de moda”, o que realmente é;
até a era moderna, o axioma era que o Estado, com suas tendências
perniciosas intrínsecas, exigia vigilância constante.

Algum fatos que ilustram bem o humor de nossos tempos me vêm à mente.

A expressão comum “nós devemos a nós mesmos”, em relação aos débitos
contraídos em nome do Estado, é um indicativo da tendência de
removermos de nossa consciência a linha que demarca o limite entre os
governantes e os governados. Essa não é apenas uma frase popular em
livros de economia, mas um princípio bem aceito em muitos círculos
financeiros. Para alguns banqueiros modernos, um título do governo é
pelo menos tão seguro quanto a obrigação de um cidadão particular, já
que o titulo é, na verdade, uma obrigação dos cidadãos de pagar
impostos. Esses banqueiros não fazem nenhuma distinção entre débitos
garantidos pela produção, ou por alguma habilidade produtiva, e os
débitos garantidos por alguma força política. Em última análise, um
título do governo é um título sobre a produção, então qual é a
diferença? Segundo esse raciocínio, os interesses da população, que
estão sempre concentrados na produção de bens, são colocados no mesmo
patamar que os interesses predatórios do Estado.

Em muitos livros de economia, a atitude do governo de tomar
empréstimos junto à população, abertamente ou através de pressão
junto aos bancos para que emprestem a poupança de seus clientes, é
explicada como uma transação equivalente à transferência de dinheiro
de um bolso para outro da mesma calça; o cidadão empresta a si mesmo
quando empresta ao governo. A lógica desse absurdo é que o efeito na
economia da nação é o mesmo se o cidadão ou o governo gasta esse
dinheiro. Ele simplesmente abre mão de seu direito de escolha. O fato
de que o contribuinte pode não ter interesse algum nas coisas com as
quais o governo gasta o seu dinheiro, que ele não contribuiria
espontaneamente para esse gasto, é ignorado. A idéia da “mesma calça”
permanece na identificação da amorfa “economia nacional” com o bem-
estar do indivíduo; ele é, assim, imerso na massa e perde sua
personalidade.

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