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O dogma dos nossos tempos – Por Frank Chodorov (Final)


A frase “nós somos o governo” também é um exemplo desse pensamento.
Seu uso e aceitação mostram o quanto o coletivismo tomou as mentes
americanas neste século, chegando a abolir a tradição americana
fundamental. Quando a União foi fundada, o principal medo dos
americanos era de que o novo governo pudesse se tornar uma ameaça à
liberdade, e os constituintes se dedicaram a aliviar esse medo. Agora
crê-se que a liberdade é um prêmio que o governo concede em troca da
nossa subserviência. Essa inversão foi feita com base em um truque
semântico. A palavra “democracia” é a chave desse truque. Quando
alguém procura o significado da palavra, vê que não é exatamente uma
forma de governo claramente definida, mas uma regra para “atitudes
sociais”. Mas o que é uma “atitude social”? Colocando de lado todo o
palavrório que pudesse tentar explicar o conceito, aparentemente, ele
não é nada mais que o bom e velho majoritarismo: o que cinqüenta e um
por cento da população considerarem certo está certo, e a minoria
estará necessariamente errada. É só um novo nome para a velha ficção
da “vontade geral”. Não há espaço nesse conceito para a doutrina dos
direitos inatos; o único direito disponível para a minoria, mesmo a
minoria de uma só pessoa, é a conformidade com a “atitude social”
dominante.

Se “nós somos o governo”, então o homem que se encontra na prisão
deve culpar a si mesmo por sua condição, e o homem que obtém toda
dedução de impostos que a lei permite também está se prejudicando.
Enquanto isso pode parecer um inacreditável reductio ad absurdum, o
fato é que muitos dos que foram prejudicados por essa lógica têm se
conformado com ela. Boa parte da população desse país era de
fugitivos do regime de alistamento compulsório – que era chamado
de “czarismo” há duas ou três gerações e considerado a forma mais
básica de servidão involuntária. Agora já passamos a aceitar que um
exército com alistamento compulsório é, na verdade, um exército
democrático, composto por homens que se adequaram à “atitude social”
da época. É assim que as pessoas normalmente alistadas se consolam,
quando forçadas a interromper seu sonho de ter uma carreira. A
aceitação da obrigatoriedade do serviço militar atingiu o ponto da
resignação insconsciente da personalidade. O indivíduo, como um
indivíduo, simplesmente não existe; ele faz parte da massa.

Esse é o ápice do estatismo. É uma forma de pensar que não reconhece
nenhum ego, exceto o do coletivo. Por analogia, devemos citar a
prática pagã do sacrifício humano: quando os deuses pediam, quando o
curandeiro insistia que essa era uma condição para fazer o clã
prosperar, cabia ao indivíduo se jogar no fogo sacrificial. De certa
forma, o estatismo é um paganismo, o culto a um ídolo, algo criado
pelos homens. Sua base é puro dogma. Como todos os dogmas, está
sujeito a interpretações e racionalizações, tendo cada um deles seu
pequeno grupo de seguidores. Porém, não importa se alguém se vê como
comunista, socialista, apreciador da política do New Deal, ou
apenas “democrata”: cada uma dessas opções vêm da premissa de que o
indivíduo deva ser apenas um servo deste ídolo que é a ‘massa’. E que
sua vontade seja feita.

Ainda existem almas fortes, mesmo neste século vinte. Há alguns que
crêem, na privacidade de sua pessoa, que o coletivismo é a negação de
uma ordem mais elevada. Há não conformistas que rejeitam a noção
hegeliana de que “o Estado encarna a idéia divina na Terra”. Há
alguns que crêem firmemente que somente o homem é feito à imagem de
Deus. À medida em que esses remanescentes – esses indivíduos – ganham
entendimento e aprimoram suas explicações, o mito de que a felicidade
deve ser encontrada sob a autoridade coletiva esvaecerá na luz da
liberdade.

Tradução por Magno Karl

Este ensaio foi publicado pela primeira vez em The Freeman (Junho de
1956), sendo republicado, com pequenas alterações, como a introdução
de “The Rise and Fall of Society”.

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