Início > Economia, Política > A esquerda de hoje

A esquerda de hoje


O jornalista Alberto Vargas Llosa, do Independent Institute, vai ainda mais longe. A existência de “capital morto”, diz ele, é apenas um reflexo de um problema muito mais amplo: a persistência de uma cultura antiquíssima, que até antecede os tempos coloniais, baseada no que ele chama de “os cinco princípios da opressão”: corporativismo (as leis não tratam de indivíduos, mas de grupos, determinados pela sua função no processo econômico), mercantilismo estatal (o Estado não é uma entidade neutra que existe para a conveniência dos governados, mas um ente onipotente que exige da sociedade que ela trabalhe para mantê-lo), privilégio (a única forma de ascenção social e enriquecimento é a obtenção de favores e benefícios especiais do Estado, normalmente concedidos a corporações específicas), transferência de renda (o Estado atua como redistribuidor compulsório de renda, tirando de certas corporações para dar a outras que momentaneamente estejam em suas graças) e lei política (a lei existe de acordo com a conveniência dos governantes, e não como princípios gerais válidos para todos; a prática de legislar em causa própria não é a exceção, mas a regra). Esses elementos aparecem, em formas diversas e em intensidades variáveis, ao longo de toda a história latino-americana. O desenvolvimentismo, diz Vargas Llosa, nada mais é do que uma das várias encarnações desses cinco princípios. E as reformas liberalizantes dos anos 90, embora saudadas à época como audaciosas e inovadoras, na verdade pouco ou nada fizeram para atacar a preeminência dos cinco princípios da opressão. Em vários casos, elas nada mais fizeram do que destituir algumas corporações e beneficiar outras, de acordo com o clássico modelo subdesenvolvido de “capitalismo bandido”. Vargas Llosa mostra que as reformas dos anos 90 não obtiveram os resultados esperados, não por serem ambiciosas demais, mas sim por não terem ido longe o suficiente.

É com esse contexto em mente que devemos encarar o recente avanço da Esquerda latino-americana. Na realidade, ela não oferece nada de novo: suas propostas, na essência, nada mais são do que a perpetuação dos cinco princípios da opressão que já existem e imperam na América Latina, apenas em nova roupagem. As demonstrações de apreço de certos membros do governo Lula pelas políticas econômicas desenvolvimentistas do regime militar, por exemplo (a começar do próprio presidente), assim como iniciativas como a tentativa de ampliação da carga tributária sobre os prestadores de serviços e micro-empresários (que atuam ao largo do Estado e representam portanto um foco potencial de resistência ao mercantilismo estatal e ao corporativismo) são exemplos claros de que as diferenças entre a esquerda atual e a “velha direita” do continente são apenas de métodos e interesses particulares, jamais de objetivos ou visão de mundo. Tal como os regimes militares que combateu, a Esquerda latino-americana é nacionalista, estatista, anti-liberal, anti-democrática e corporativista – os atores são outros, mas a concepção de mundo é a mesma. O objetivo da Esquerda é apenas perpetuar os mecanismos de opressão que acorretam a região há séculos.

Se o Brasil em particular, e a América Latina em geral, quiser realmente prosperar, precisa romper com os princípios da opressão que marcam sua história e pensamento. Existem elementos, à direita e à esquerda, que parecem entender ao menos parcialmente a necessidade premente de seguir em outra direção; mas ainda falta a visão de todo do dilema que acorrenta a América Latina. Se não rompermos com esse legado de opressão, corremos o risco de continuar como a Esquerda que agora está no poder: tropeçando em meio aos escombros de um modelo econômico falido, bradando slogans e frases de efeito que não repercutem no mundo real, e arremetendo contra inimigos imaginários tal qual um Dom Qixote moderno. Enquanto não entendermos que a solução para a América Latina é a liberdade, continuaremos a andar em falso, buscando a miragem eterna da prosperidade que nunca chega.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. outubro 7, 2010 às 3:09 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: