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Dilma, FHC, Lula e as comparações


Se há algo que me deixa mais entediado é falar sobre política nacional. Começa pelo fato de não me sentir representado politicamente por nenhuma agremiação existente hoje. Vida de um liberal no Brasil não é fácil.

Sou da opinião que há pouquíssima diferença entre o PSDB e o PT. Uns representam a esquerda da FIESP (para os que acham isso absurdo basta saber que o Paulo Skaf, presidente da FIESP, irá se candidatar pelo Partido Socialista Brasileiro), e o outro a esquerda sindical.

É verdade que o PT é um partido mais ligado ao autoritarismo, com arroubos anti-liberais mais fortes que o PSDB. Isso se deve pela permanência da velharia socialista que ainda existe no Brasil. Coisa que os próprios socialistas europeus veem com muita curiosidade, tal qual um animal em extinção exposto em um zoológico.

Mas uma coisa me chama atenção: como o PSDB é ruim de política. Impressionante como os erros se acumulam no partido tucano. E o maior deles foi ter afastado FHC da política nacional caindo no discurso de “herança maldita” repetido “mil vezes até se tornar verdade” pelo PT e seus quadros. Ao fazer isso o PSDB abandonou um dos seus maiores trunfos que foi o Plano Real. O PT, malandramente, acabou por aglutinar as conquistas do referido plano como se fossem dele e não uma consequência direta da estabilização da economia proporcionada pelo plano de FCH e equipe.

É claro que o PSDB tem sua parcela de culpa. Ao demorar muito em deixar o câmbio flutuar acabou por agravar uma crise que se tornou o ponto de partida para o discurso de herança maldita repetido pelo PT “mil vezes até se tornar verdade”.

Foi por isso que recentemente a Ministra Dilma Rousseff afirmou que “se é para comparar, vamos comparar”. Só que aí faço uma pergunta: porque a comparação deve ser feita somente entre os dois governos? Aliás, seria essa uma comparação justa?

O que eu proponho é o seguinte: comparar os oito anos do governo Lula com os oito anos do governo FHC e comparar os oito anos do governo FHC com os oito anos anteriores (Sarney, Collor e até mesmo Itamar). Pode ser inflação, PIB, investimentos sociais e depois comparar os resultados. Só assim seria uma comparação justa.

Uma prévia do que poderia ser?

Pois bem, entre 1990 e 1994 a inflação média foi de 764% ao ano. Entre 1995 e 2000 foi de 8,6%. Ou seja, uma queda na inflação de quase 99% no governo FHC devido ao Plano Real, que o PT foi contra.

Acho que seria algo de bem mais interessante.

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Esse artigo foi publicado no O Globo na seção Opinião.

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Categorias:Política Tags:, , ,
  1. fevereiro 10, 2010 às 5:57 pm

    Muito bom, Dom Pablo, muito bom. Assino na integra o teu post. O PSDB é de uma incompetência absoluta em fazer oposição. Impressionante. Quem faz oposição no Brasil é a mídia. E também os governos estaduais do PSDB como o do aqui no RS faz gestão pífia, incompetente e tem uma falha tremenda na comunicação, se enredou na política de entrega de cargos com partidos que integram a coligação e virou refém do PT e dos promotores demagogos. E o Serra parece que cochila e começa a perder terreno. A sorte do PSDB é que a Dilma é uma candidata de pouco carisma (ao contrário do Lula) e nunca conseguiu se eleger para nada aqui no RS, nem para vereadora.

  2. guimas
    fevereiro 10, 2010 às 8:07 pm

    Pablo, concordo contigo. O governo FHC teve muitos méritos, mudou o Brasil para melhor, mas estagnou em seu final. A mudança para o governo do PT veio bem.

    O governo Lula tem seus méritos também, e não dá pra jogá-los fora (como querem os tucanos agora).

    Agora, o que teria que acabar também é essa demonização constante do PT (são comunistas!), que nos últimos oito anos se mostrou, como direi…. estúpida. O governo Lula veio, o mundo não acabou, a economia brasileira está estável e vai bem (poderia ir melhor? Talvez, esta é outra discussão), a miséria diminuiu bastante, houve melhoria na distribuição de renda (insuficiente ainda, mas há luz no fim do túnel). É importante avaliar se o PT “continuou o governo FHC, mudou muito, mudou pouco? Acho que não. Me importa mais os resultados. Se o PT teve mais sorte (menos crises internacionais e etc.), mais um motivo pra votar em Dilma: ela é sortuda (just kidding, of course).

    Estou cansado de ouvir os antipetistas dizerem que Dilma vai entregar o governo aos “radicais” petistas (os que deveriam estar no zoológico). Ou que vai aderir à agenda bolivariana de Chavez. Só falta aparecer a Regina Duarte e dizer que está com medo novamente.

    O PSDB parou lá pelo ano 2000. Não tem projetos novos. Não produz debates que não estejam diretamente ligados ao antipetismo. Aposta hoje na rejeição ao PT para eleger seus políticos. É assim no RS, em SP. Alguém precisa ir lá e “rebootar” os intelectuais tucanos. O Brasil precisa deles também.

  3. vilarnovo
    fevereiro 10, 2010 às 8:43 pm

    Guimas, não discordo nem um centímetro de sua crítica ao PSDB. Não mesmo.

    Agora só uma coisinha: o pré projeto (vamos colocar assim) que foi apresentado pela campanha da Dilma é um horror. É a volta dos PND dos militares. Dá para ver claramente o dedo do Delfin Netto ali.

    Coisas como a recriação da Telebrás, o Zé Dirceu dizendo que o governo deveria criar uma seguradora de saúde para competir com as privadas (se esquecendo que o governo mal consegue gerir o SUS) é de colocar os cabelos em pé.

    Isso sem contar com os arroubos autoritários como os CONFECOMs da vida.

  4. Pax
    fevereiro 10, 2010 às 9:29 pm

    Vilarnovo,

    Você viu o pré projeto da campanha da Dilma em detalhes?

    Pode me indicar um link?

    Aplausos ao guimas, acima. E um pouco à além: quem acaba dizendo a melhor verdade é a Marina, atualmente, afirmando que PT e PSDB erraram em não se unir.

    http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,pt-e-psdb-engessam-debate-politico-no-brasil–diz-marina-silva,508699,0.htm

    Melhor o PT com o PSDB que com o PMDB e melhor o PSDB com o PT que com o DEM.

    Já os liberais, coitados, não tem qualquer representação no Brasil. O que acho ruim. Deveriam ter.

  5. fevereiro 10, 2010 às 10:42 pm

    Olá!

    A principal crítica que faço aos esquerdo-petistas consiste no fato de que os oito anos de governo Lula não foram capazes de dar para a posteridade um legado com a mesma envergadura histórica que possui o Plano Real.

    Foi o Plano Real que criou as condições necessárias para que o Brasil pudesse colher os frutos da bonança econômica pela qual o mundo passou nesta última década. Eu pergunto: O governo Lula foi capaz de fazer o mesmo para o seu sucessor?

    Isso é um fato.

    O problema de votar em Dilma Rousseff é que o eleitor que o fizer estará comprando muito mais coisas do que simplesmente a tal da “candidata do Lula”. Da mesma forma que em 2002, quando o Lula ganhou as eleições, quem votou nele comprou um pacotão de coisas toscas, a saber:

    01. Transferência de dinheiro público para “movimentos” “sociais” (MST, ONGs, e afins);

    02. Indignidade seletiva com os regimes ditatoriais ou que se aproximam disso (basta ver como os petistas trataram o ocorrido em Honduras — uma deposição constitucional — e como eles tratam Venezuela, Irã e Cuba);

    03. Ataques constantes aos valores democráticos. Isso tem ocorrido pelo menos uma vez a cada ano neste governo. Basta verificar quantas “conferências” foram feitas para tentar controlar os meios de comunicação, a imprensa, e etc. Não houve, nos anos FHC, nada comparável em termos de ataques à democracia ao que agora ocorre;

    04. Ganhar de “brinde” um parque contendo os dinossauros das ideologias políticas: Marco Aurélio Garcia é o seu maior expoente, bem como Franklin Martins, Tarso Genro, a própria Dilma Roussef e o tal de Vanucchi. O problema é que essa gente participa do que é importante nas decisões tomadas sobre os problemas do país e teimam em colocar os seus respectivos enviesamentos ideológicos nessas decisões;

    05. Enfraquecimento dos valores e instituições democráticos. Infelizmente, Lula entregará em 2011 um país institucionalmente mais enfraquecido do que aquele que pegou em 2003. Lula, pelo andar da carruagem, não conseguirá representar para o seu sucessor aquilo que FHC representou para o Lula;

    06. Dos partidos principais, o PT é que mais mostra hostilidade às idéias modernizantes, liberais e que facilitam a circulação da riqueza que poderiam ser implantadas no país. O PSDB mostrou que possui em seu âmago um certo espaço para isso e duvido muito que o PT demonstrasse a mesma coragem política para privatizar uma Vale do Rio Doce ou uma EMBRAER por exemplo (que ficaram muito melhores depois de privatizadas).

    Vale recordar que a Dilma Roussef e seu tosco proto-programa de governo presidencial prezam por um Estado mais forte. Volto a lembrar no que resultou essa mentalidade de “Estado mais forte” quando implantada pelos militares: Hiperinflação; reserva de mercado; estatais-cabides-de-emprego; ineficiência generalizada; aumento da pobreza; e etc.

    Não estou afirmando que o tal do “Estado forte” da Dilma Roussef traria esses mesmíssimos problemas caso fosse implantado. Porém, como os fatos históricos já nos mostraram mais de uma vez, essa idéia de “Estado forte” trouxe, invariavalmente, mais prejuízos do que benefícios para os países que o utilizaram. União Soviética, Cuba e Venezuela são os maiores exemplos disso.

    Além do que, um “Estado forte” não consegue bancar uma livre iniciativa igualmente forte — já que terá de aviltá-la tributariamente para se manter. É o contrário: É uma livre iniciativa forte que banca o tal do “Estado forte” ao estilo escandinavo.

    Até!

    Marcelo

  6. guimas
    fevereiro 10, 2010 às 10:44 pm

    Vilarnovo,

    É cedo pra falar em pré-projeto. Acho que por enquanto estamos num estágio “todo mundo dá palpite”. Vamos esperar pra ver.

    Abraços,

    Guimas

  7. Pax
    fevereiro 11, 2010 às 1:43 am

    Que chique, Pablo, virou colunista do O Globo!

    Parabéns.

    • vilarnovo
      fevereiro 11, 2010 às 12:10 pm

      Longe de ser coluninsta. Conheço alguns amigos liberais que o são. Qualquer um pode enviar um artigo para ser publicado naquela seção.

  8. fevereiro 19, 2010 às 1:07 pm

    Concordo num aspecto: quem pegou “herança maldita” ferrada mesmo foi o FHC, que começou seu governo quando aceitou participar do governo Itamar como ministro da fazenda, e decidiu dar carta branca para o Malan colocar seu plano explêndido em ação.

    Se o Lula tivesse chance de ter ganhado em 1994 não conseguiria fazer tudo que o FHC fez, inclusive por que o PT tinha quadros ainda piores que os de agora.

    A questão que se debate não deveria ser quem fez melhor (Lula ou FHC), porque as condições de antanho não se repetem.

    Ambos os governos (considero-os siameses) criaram uma establidade institucional-político-financeira que nós ainda estranhamos no Brasil.

    Afinal, os 16 anos de FHC-Lula e PT-PSDB já são o maior período democrático da história do país. E ambos os partidos já são o de história mais longa de disputa política democrática.

    Se poderiam ter se unido para derrotar o rebotalho da má política? Tenho dúvidas se daria certo. Com a polarização que vão fazendo, acho que a tendência é de as outras agremiações irem ficando cada vez mais inúteis.

    E falta mesmo um partido liberal no Brasil, capaz de alguma ação política séria e coordenada. Não vejo muita perspectiva de isso surgir no horizonte…

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