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A crise Grega e o papel da Alemanha


A atual crise que se alastra pela Zona do Euro (ZE) tem raízes na sua formação e mais precisamente no papel da Alemanha na formação da Comunidade Europeia.

A posição geográfica da Alemanha, nas planícies do centro da Europa a coloca em uma posição em hiperatividade. Não há grandes barreiras naturais que separem o país germânico do oeste e do leste. Em tempos de paz a Alemanha é agressiva no seu comércio, um grande porto e rota para os produtos europeus. Em tempos de guerra, luta contra todos.

De Gaulle, no pós-guerra, percebeu que não poderia competir com os EUA e com a URSS por um lugar de prestígio no mundo, portanto utilizou o poder econômico da Alemanha como uma forma de impulsionar a importância da França nas mesas internacionais. Por isso a França nunca entrou realmente na OTAN apesar da primeira sede ter sido no país gaulês, a França saiu do comando da OTAN em 1966 pelas mãos de De Gaulle e só em 2009 voltou ao comando da Organização.

Quando a Guerra Fria acabou a Alemanha suportou todos os custos de uma onerosa reunificação enquanto manteve os pagamentos para com a União Europeia. Quando a moeda foi unificada, o marco alemão se tornou a espinha dorsal do euro já que os ingleses preferiram manter a sua preciosa libra (atitude correta, em minha opinião). Muitos marcos foram gastos defendendo moedas mais fracas durante os anos inicias do Euro. E mesmo assim muitos países logo antes de entrar para a Zona do Euro desvalorizavam artificialmente suas moedas para garantir vantagens frente à Alemanha.

Porém atualmente a Alemanha mudou sua visão e não mais está com o talão de cheque aberto e atua de maneira mais independente frente seus “parceiros” da ZE.

A crise atual remota ao um dos grandes sucessos europeus: o Tratado de Maastricht e a unificação montaria derivada dele. Todos ganharam com a unificação: a Alemanha ganhou livre acesso a novos mercados e os outros países, principalmente os menores e mais pobres ganharam acesso às linhas de crédito a baixos juros alemães.

E justamente esse último ponto é o causador da crise. A maioria dos investidores pensou que toda a ZE tinha livre acesso do Bundesrepublik. Essa noção vinha porque recentemente a Alemanha havia sido muito generosa com seus parceiros, resgatando-os de problemas financeiros antes que a adoção do Euro terminasse com a necessidade de coordenar as diferenças entre as diversas moedas.

Os investidores olharam os países que tradicionalmente gastam muito como Portugal, Espanha, Itália e Grécia e decidiram que seus títulos tinham a garantia implícita do Euro. Mesmo que os países mais pobres nunca tivessem cumprido realmente as regras fiscais do tratado de Maastricht – a Grécia inclusive falsificou estatísticas para poder ser aceita como membro – o custo para esses países tomarem dinheiro continuou a cair.

Porém a crise de 2009-2009 fez com que os investidores fossem mais rigorosos nas decisões de onde colocar o dinheiro e a diferença do custo para esses países em comparação com a Alemanha aumentou pela primeira vez desde a assinatura do tratado.

Os comissários europeus estão realizando um tremendo esforço para contar o pânico dos investidores, mas os gastos da Grécia não estão ajudando em nada. Greves e outras pressões políticas dão mostra que um plano de conter os gastos públicos não será facilmente implementado.

De acordo como cenário estabelecido, a Alemanha tem duas alternativas: a primeira é simplesmente deixar os países quebrarem. Talvez haja uma grande vontade, depois de 60 anos sendo o burro de carga da Europa, deixar que alguns países sintam o gosto de suas próprias decisões.  Mesmo com a atual crise, há ainda uma grande margem para que o spread da Grécia aumente. Isso sem contar que do ponto de vista econômico da Alemanha, deixar a Grécia quebrar é a opção mais acertada. Isso faria também que outros países tomassem mais cuidado com suas contas públicas. O problema é que a Grécia não é o único país a enfrentar essa crise. Os outros gastadores, como Itália e Espanha não estão em situação muito diferente. E estudos recentes demonstram que a França e a Bélgica estão em uma situação apenas marginalmente melhor que os países do Mediterrâneo.

O problema com essa lógica é que a Alemanha sabe que disso depende o futuro da Europa e o papel da Alemanha nele. Os alemães reconhecem que o seu papel geopolítico é menor do que muitos países como os EUA, China e até mesmo Rússia e o Brasil. Isso tudo foi demonstrado até mesmo pela recusa de Obama em comparecer no tradicional encontro entre a Comunidade Europeia e os Estados Unidos.

A única maneira da Alemanha se fazer presente é se a toda a Europa se fizer presente. Se a Alemanha fizer o que seria economicamente prudente e deixar a Grécia falir, faria que outros países mudassem suas políticas fiscais e até mesmo fortaleceria o Euro ao longo prazo, mas o trade off seria tirar o euro como uma moeda mundial, assim como a Comunidade Europeia como um importante player.

Países que controlam sua própria moeda possuem mecanismos para lidar com crises (a grande diferença entre uma crise na Europa e uma crise nos EUA é justamente essa). Mas a Grécia e os outros integrantes da ZE deixaram suas políticas monetárias nas mãos do Banco Central Europeu. Caso esses países não consigam melhorar suas contas públicas através de corte de gastos, a única maneira será deixar a Comunidade Europeia. Não é necessário afirmar que a própria Comunidade Europeia estaria em risco caso países solicitassem o desligamento.

O que nos deixa com a segunda opção: a Alemanha irá salvar a Grécia.

Não há dúvidas da capacidade econômica alemã para realizar isso. Porém essa atitude trará muitas mudanças. Não haverá mais uma liderança implícita da Alemanha no Banco Central Europeu e na ZE. O controle será uma realidade e com isso a Alemanha irá comandar as políticas fiscais dos membros mais pobres e periféricos. Isso fará com que (finalmente para alguns) a Alemanha tenha o controle de países que não conseguiu ter com a força. A ZE precisa  de 2,2 trilhões de Euros, com a Grécia precisando de 53 bilhões apenas para passar o ano de 2010. A Alemanha, se for agir, precisa agir rápido para salvar a Grécia e também Portugal antes que a crise se espalhe.

Esse é o custo para que a Europa dê certo. É também o custo para a liderança da Alemanha no continente. Não no final de um cano e sim no fundo de seus bolsos.

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  1. fevereiro 18, 2010 às 5:03 pm

    Pois Pablo, os tempos mudaram, porque estão bicudos. O carnaval de antigamente é diferente do de hoje, que é mais contido. A Alemanha, que está sendo muito bem administrada pelo atual governo, sente no bolso o preço de certos incentivos que concedeu aos países vizinhos e amigos. O Brasil, com o atual governo, começou a fazer uma política semelhante, é bom que se pare um pouco para pensar.

  2. fevereiro 22, 2010 às 1:09 pm

    Pablo,

    Escrevi em meu blog, no 2º semestre de 2008, dois posts a respeito das reais origens da crise e, na época, discutimos a questão no blog de Pedro Doria.

    Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, Itália e os outros ainda encobertos padecem de moléstia econômico-contábil semelhante à que acometeu os USA : circulação excessiva de moeda X produtividade incipiente.

    A canalização abundante de créditos propiciada nos primeiros anos da circulação do Euro é apenas a versão européia da prática de valorização artificial imobiliária conduzida na América do Norte.

    A diferença essencial entre ambas é que na Europa foi realizada diretamente e nos USA, indiretamente, o que exigiu intermediação financeira, via superposição hipotecária.

    As duas condutas, no entanto, tem objetivos equivalentes : propiciar elevação artificial de rendas e consumo. Mas como toda medida artificial, chegada a hora de pagar a conta não existe PRODUTO capaz de sustentar a amplitude do meio circulante e……….plaft!!!

    O senhor Paul Krugman pode fazer malabarismos teóricos à vontade, mas não consegue esconder a realidade da economia real, da produtividade sofrível e da inexorável continuidade da crise.

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