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No caminho do Terceiro Mundo

março 24, 2010 4 comentários

Que os brasileiros, mesmo os jornalistas mais informados, pouco têm conhecimento da sociedade americana é um fato bem conhecido. Padecem do erro de tentar ver nos americanos algumas das características latino americanas, ou melhor, gostariam que os americanos fossem um pouco mais parecidos conosco. Para melhor, o que é bom, e para pior. Gostariam de ver a mesma leniência política e ideológica, a mesma relatividade moral, o mesmo estatismo, o mesmo “pai dos pobres”, a mesma dependência de poder central.

Acontece que os americanos são diferentes (ainda bem), possui uma história diferente, valores diferentes, objetivos diferentes, uma visão de mundo e de sociedade diferente da nossa.

Quando chega ao poder um cara como Obama, que é muito parecido com uma figura política sul americana ficam excitados.  É quase um sonho se tornando realidade. Ainda mais quando chega após uma figura patética quanto Bush.

Isso cega, completamente a análise política e econômica da atuação de Obama na Casa Branca. O caso do Health Care é bem característico. Não importa os absurdos incoerentes ditos por Obama, todo discurso dele é “histórico”. Não importa o que ele faz tudo leva nuance de algo místico e superior.

O Alon em seu excelente blog ao comentar sobre a aprovação do pacote de saúde democrata afirma:

Uma reforma na Saúde para incluir a ampla maioria dos até agora excluídos e reduzir o poder das companhias de seguros.

Que “ampla maioria” que ele se refere? De onde ele tirou essa informação eu não sei. Cerca de 15% da população americana não tem plano de saúde. Dificilmente isso é uma “ampla maioria”, mesmo somando aos 21% que afirmam que seus planos não cobrem suas despesas. Novamente 31% também não podem ser considerados nem mesmo maioria. Mas isso é o que menos importa nesse debate. Só coloquei isso para mostrar a falta de embasamento. Seguimos.

(…) A reforma na Saúde enfrenta a rejeição popular —vitaminada pela poderosíssima campanha dos lobbies. Por isso, o bom senso e o instinto de sobrevivência política recomendavam ao presidente, segundo o pensamento convencional, um recuo tático. Assessores sugeriram isso a Obama.

Primeiramente ele deveria dizer que lobbies ele está se referindo. Só se for do povo americano que desde sempre se mostrou desfavorável a ESSA reforma da saúde.

Vamos aos dados? Todos extraídos do instituto de pesquisa Rasmussen.

Um total de 49% dos americanos é favorável que os Estados entrem com ações judiciais contestando a obrigação de possuírem um seguro saúde.

Cerca de 54% dos americanos acreditam que os custos dos planos é um problema maior que a cobertura universal. E eles sabem que o plano de Obama vai aumentar esses custos e não diminuir.  Mais de 40% acreditam que o preço dos remédios irá aumentar e apenas 23% acreditam que vão cair. Guardem esses números que comentarei sobre eles mais tarde.

Isso mostra, também porque 54% dos americanos são contra o plano de Obama. Veja bem, não estou dizendo que são contra uma reforma na saúde, são contra ao plano de Obama.

Esses números, facilmente encontrados na internet mostram um perfil do povo americano totalmente diferente daquele que encontramos em Obamistas no Brasil e no mundo. Fato é que costumam se cercar de mídia que apoiam o governo Obama incondicionalmente como CNN, MSNBC e o New York Times. Acreditam piamente que a maioria da população apoia Obama, a despeito de todos os protestos que estão acontecendo. Até porque, segundo esses analistas, são todos racistas, retrógrados, fascistas, conservadores e etc. O resultado da eleição no quintal dos Kennedy não forneceu nenhuma dica a essas pessoas. Quer dizer até forneceu, eles que preferem realizar análises baseadas em seus desejos mais obscuros e não na realidade. Já mostrei aqui o desastre que será para os Democratas as próximas eleições ao Senado. Deixaram de lado, também que quase 20% dos Democratas votaram contra o plano de Obama. Foram 34 votos dos democratas contra. Mas isso passa batido nas análises realizadas.

Lembram-se do que o Alon afirma? Que Obama teve que lutar contra “lobbies poderosíssimos”? Eu gostaria, muito, muito mesmo, que ele dissesse que lobbies são esses. Das empresas de Seguro saúde que não são. Pois uma pessoa que faz uma análise da realidade, que acompanha a sociedade e a política americana poderia ter verificado que as ações das empresas de seguro e fabricantes de remédio subiram como nunca após a assinatura da lei.

A verdade agora é o seguinte. Só um total alienado acredita que o déficit americano irá cair com esse plano. É só ver também, que o dólar perdeu mais valor ainda.

Humm, estranho não é? Ou não?

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Update

Outra coisa que é incompreensível é a opção por ignorar que a impopularidade alta de Obama nos EUA deve-se, também, a essa reforma da saúde. A maioria dos Obamistas dizem que foi uma grande “vitória” para Obama, um ponto de mudança na curva…

De onde vem essa análise não faço a menor idéia. Obama vai gastar milhões na propaganda de seu projeto, aliás o que já é algo estranho. Aprovar o que grande parte do povo americano não quer e depois tentar vender aquilo que foi enfiado goela abaixo.

No próximo mês coloco novamente as pesquisas de popularidade. Veremos então…

Regulação x Livre Mercado: complementares e não excludentes

março 19, 2010 10 comentários

Um resultado a crise que assolou o mundo nos últimos anos foi o debate entre livre comércio e regulação. Os adeptos da presença do governo nos mercados afirmam que a crise só ocorreu devido à falta de regulações, ou seja, culpam pela crise o que chamam de liberalismo. Já os liberais, como eu, afirmam que regulações sempre existiram e que o mercado onde se originou a crise é um dos mais regulados do mundo. Porém, se há algo unânime foi que o primeiro indício da crise se deu com a quebra do banco de investimento Lehman Brothers.

Uma notícia veiculada no Financial Times e replicada no El País coloca mais lenha nesse debate. Segundo os diários a Merrill Lynch, concorrente do Lehman, avisou às autoridades competentes sobre a maquiagem nos balanços do banco de investimento. A suspeita originou-se devido ao comunicado do Lehman Brothers sobre sua liquidez, informando ao mercado que seria o banco mais líquido da concorrência. Ao receber telefonemas e indagações de seus clientes, os funcionários da Merrill Lynch suspeitaram e não consideraram críveis as alegações do concorrente: “Lehman estava dizendo ao mundo que contava com liquidez de sobra e nós sabíamos que não poderiam estar melhores que nós”, afirmou um funcionário da Merril Lynch. Semana passada um tribunal de falência de Nova Iorque afirmou em um comunicado que os responsáveis pelo banco de investimento maquiaram suas contas para esconder as dificuldades da entidade.

Isso nos leva a mais um capítulo onde as seguintes perguntas são evidentes: a) se houve maquiagem, houve crime; b) se houve crime foi porque uma lei já existente foi quebrada; c) os responsáveis por averiguar às leis são o FED e a SEC principalmente, onde estavam esses organismos?

E para finalizar, o mais importante: muitos dizem cobras e lagartos sobre a autorregulação do mercado, dizem que é algo que não existe. Esse caso mostra que existe sim, o que falhou foi a fiscalização e a atuação dos órgãos competentes. O fato de um concorrente direto ter avisado às entidades competentes sobre o que estava ocorrendo mostra isso.

É lógico que os liberais acreditam que leis devam existir por isso uma das metas dos liberais é o que chamamos de Império das Leis, onde essas devem ser escritas e cumpridas de forma a garantir um funcionamento competitivo e justo não só do mercado, mas de todas as outras interações econômicas, seja entre dois mega bancos de investimento ou na compra de um picolé na padaria da esquina.

A maior crítica dos liberais ao leviatã governamental é sobre a crença de que alguns têm em uma entidade imaginária chamada Estado, como se essa não fosse composta por pessoas passíveis dos mesmos erros e interesses existentes no mercado. Acreditam piamente quando alguém veste a túnica de governo passam a possuir ideias geniais, poderes celestiais e ficam desprovidas de todo e qualquer interesse próprio, tornando-se assim seres totalmente altruístas e providos de uma bondade divina.

Os liberais acreditam que não é por aí, e quanto mais simples, claras, objetivas às leis é melhor para todos, desde o próprio Estado que tem maior capacidade de regulação e, principalmente, fiscalização do cumprimento dessas leis, e para o mercado (incluindo o consumidor) que pode dessa maneira escolher, através das milhões de interações sociais, que em todos os aspectos são mais inteligentes do que meia dúzia de burocratas que se acham mais inteligentes que os milhões de consumidores, possam fiscalizar e cobrar maior clareza e accountability das empresas as quais mantêm contato.

P.S.: Você elegeria um provado incompetente para ser CEO de sua empresa? Você contrataira alguém que falhou miseravelmente em suas responsabilidades para gerir seu patrimônio? Pois bem, foi exatamente isso que  administração Obama fez ao colocar como Secretário do Tesouro (o homem com a chave do cofre) o ex-presidente do FED de Nova Iorque, Timothy Geithner, que era o responsável em fiscalizar não só o Lehaman Brothers, mas quase todas as outras instituições atingidas pela crise. Excelente caso de alguém que “caiu para cima”.

P.S.2: Muitos dos que chamam hoje de Keynesianos, ou neo keynesianos não fazem a menor idéia do que Keynes realmente dizia. Na verade isso não é novidade. Muitos dos que se chamam de Marxistas nunca leram Marx (aliás Reagan, um dos maiores presidentes americanos, tinha uma tirada excelente: “marxistas são aqueles que dizem que leram Marx; anti-marxistas são aqueles que leram Marx e entenderam o que ele quis dizer). Para entender realmente o que Keynes representou recomendo ler esse texto do meu companheiro de Redel Liberal, Rubem de Freita Novaes.

Ataque do ETA muda atitude da França para o grupo terrorista

março 18, 2010 1 comentário

No que pode ser considerado uma ação totalmente equivocada, o ETA, grupo terrorista basco, matou um agente policial francês no último dia 16. A ação ocorreu quando um operativo do grupo terrorista tentou roubar uma agência de automóveis de luxo na cidade de Dammarie-lès-Lys que fica cerca de 50 km da capital francesa.

A ação contou com cerca de 10 membros do ETA e com o sequestro de um gerente da agência de automóveis. Após o roubo a polícia francesa foi alertada. Uma patrulha com dois policiais parou um dos BMW roubados. O ETA nunca utilizou automóveis de luxo e talvez a necessidade de ter que mudar suas práticas corriqueiras deveu-se à prisão do número 1 do grupo, Ibon Gogeaskoetxea poucos dias atrás. Enquanto o policial investigava o veículo encontrou vários recipientes cheios de gasolina e como achou estranho decidiu levar os suspeitos para a delegacia. Quando já havia algemado um deles outros carros do grupo apareceram e dispararam contra os policiais ferindo mortalmente o cabo Jean-Serge Nérin de 52 anos e pai de quatro filhos. Os outros membros conseguiram fugir, mas há indícios que alguns deles estão feridos.

O ataque causou uma grande comoção na França, gerando protestos e repúdio por todo o país. A verdade é que o ETA sempre utilizou a França como um território seguro. Não eram incomuns os protestos da polícia e governo espanhol por conta da leniência do combate ao grupo terrorista por parte do país gaulês.  Há mais ou menos uma década os esforços franceses se intensificaram principalmente por conta de acordos assinados no âmbito da Comunidade Europeia.

O presidente francês Nicolas Sakorsy afirmou hoje que “o ETA não terá a França como retaguarda”, dando entender que os dias de tranquilidade que os etarras possuíam na França acabaram. Afirmou, também, que a mobilização das forças policiais na França será total. O presidente do governo espanhol José Luiz Zapatero, confirmou que irá participar do sepultamento do policial francês. A polícia francesa afirmou que as investigações estão caminhando rapidamente e os participantes do ataque já foram identificados.

Mudança de atitude do governo francês

A atuação do governo francês no combate do grupo terrorista basco sempre foi alvo das críticas do governo espanhol. O argumento utilizado por Paris era que o ETA nunca havia praticado ações em território francês. Isso proporcionou um terreno para que os líderes etarras se escondessem assim como armazenar material bélico e local para planejamento de ataques. A mudança de atitude entre os dois países começou a mudar no final da última trégua em 2006. A presença da “Guardia Civil” espanhola em solo francês demonstrou uma maior cooperação entre os dois países. Em consequência, fontes na polícia francesa afirmam que o ETA está mais repartido e seus operativos se sentem mais vigiados que antigamente. Atualmente os etarras  utilizam estruturas mais instáveis, aluguéis de residências em áreas rurais e de verão por apenas uma ou duas semanas e longe do sudoeste francês. Não custa lembrar que o número 1 do ETA, Ibon Gogeaskoetxea, foi preso em solo francês na região da Normandia. Garikoitz Aspiazu, Txeroki, e seu substituto, Aitzol Iriondo, caíram no final de 2008 também longe do País Basco Francês. Os gendarmes, como são conhecidos os policiais franceses, por diversas vezes alertaram seu governo que deveriam se ocupar na perseguição dos etarras como um problema de ordem nacional, e não espanhol. Acreditam que depois do assassinato do cabo a vigilância e o combate ao ETA seja encarado de forma mais séria por Paris.

Quando o exemplo deveria vir de cima

março 17, 2010 2 comentários

Quase que toda semana agora aparece alguma notícia ou reportagem abordando o comportamento do Adriano, jogador do Flamengo, e agora o Vagner Love, também do Flamengo. Ambos foram flagrados em atitudes reprováveis envolvendo traficantes em favelas no Rio de Janeiro.

O assunto poderia ser abordado de várias maneiras, desde uma (opinião minha) atual onda de endeusamento equivocado de favelas no Rio de Janeiro (como se morar em uma favela fosse coisa boa), como o direito (legítimo) de frequentar esses lugares.

Adriano e Love justificam a presença nas favelas pela infância, parentesco e laços afetivos com pessoas que lá moram. Ninguém duvida disso. Acontece que isso nada tem a ver com a ligação de ambos com o tráfico de drogas.

Fato é que boa parte dos rendimentos de ambos os jogadores deve-se a sua imagem. Ela é utilizada para propagandas, patrocínios e tal. E por conta disso deveriam manter certa responsabilidade.

O problema é o seguinte: imagine uma mãe que mora em uma favela, que possui uma vida sofrida, trabalhando em vários empregos para manter o mínimo de conforte a seus filhos. E mais, trabalha também para manter seus filhos longe do tráfico. Estudos realizados mostram que mais do que o dinheiro, a principal atração para o tráfico de drogas é o status que os traficantes possuem nas favelas. É o poder que atrai. O poder do dinheiro, o poder do armamento pesado, o poder de influenciar na vida das pessoas que moram naquele lugar. Não é de hoje que jovens da classe média, muitas meninas, sobem nas favelas para se relacionar com traficantes. Isso é bem conhecido para quem mora no Rio de Janeiro.

Será que essa mãe pode competir com o tráfico de drogas quando pessoas conhecidas publicamente, que possuem grande exposição na mídia (e ganham com isso), se relacionam tão intimamente com os traficantes? Logicamente que um jovem que mora nesse ambiente leva isso em conta. Para ele é um feito e tanto conhecer alguém como o Adriano ou Love. É motivo de orgulho, motivo para comentar com seus amigos, motivo de admiração de seus amigos. E a percepção é que o tráfico de drogas ajuda a conseguir isso.

E é por isso que Adriano e Love deveriam pensar um pouco mais sobre os seus atos. Eles têm dinheiro, estão lá de passagem. Se o bicho pegar, terão suas mansões para se abrigarem. E os jovens que estão entrando no tráfico? E as mães e pais desses jovens? Como eles ficam?

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Parlamento Europeu investiga suposta pandemia de gripe suína

Algo que aparentemente passou batido pela grande imprensa brasileira (pelo menos para mim) foi o fato do Parlamento Europeu estar investigando a OMS (Organização Mundial de Saúde) quando à necessidade de vacinação em massa contra a gripe suína (H1N1). Uma das acusações é que as empresas farmacêuticas, juntamente com cientistas e a OMS, fabricaram uma pandemia, obrigando que países desenvolvessem programas de vacinação em massa, utilizando compostos ainda não testados em sua totalidade.

A moção no parlamento foi proposta pelo Dr. Wolfgang Wodarg, ex-membro do SPD alemão e atual presidente do Comitê de Saúde do Conselho Parlamentar Europeu, e aprovada de forma unânime. Wodarg é médico e epidemiologista.

As audiências já começaram e parece que o caso está sendo levado a sério. Vocês poderão ler aqui a declaração fornecida pelo Dr. Wodarg durante o processo. Para mim o mais sério é a utilização de vacinas não testadas que apresentaram sério problemas, inclusive óbitos.

Poderão acompanhar aqui o desenrolar do caso.

De maneira nenhuma estou dizendo que devam ou não tomar a vacina contra a gripe suína, apenas acho que é importante comunicar a todos que algo assim está ocorrendo sendo a decisão algo pessoal.

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Eleições ao Senado Americano

Segue as posições atuais na corrida ao Senado Americano.

Se as eleições fossem hoje:

Vitória Republicana com perda de cadeira Democrata (7)

Nevada, Colorado, Arkansas, Pennsylvania, Indiana, Delaware, North Dakota

Vitória Republicana mantendo a cadeira (6)

Florida, Kentucky, Lousiana, Missouri, Ohio, Iowa

Vitória Democrata com perda de cadeira Republicana (0)

Nenhuma

Vitória Democrata mantendo a cadeira (5)

California, Illinois, Maryland, Oregon, Connecticut

Indeciso (há tanto candidatos republicanos quanto democratas vencedores nas pesquisas, isto é, não há uma clara superioridade de algum partido)

Winsconsin (cadeira Democrata), Washington (cadeira Democrata), New Hampshire (cadeira Republicana)

Entrevista com o economista Eduardo Giannetti

março 15, 2010 7 comentários

Confesso que só li essa entrevista hoje apesar te ter sido publicada no Valor Econômico em Novembro de 2009. Ela resume bem muito do que acredito estar acontecendo no Brasil, principalmente no aspecto de poupança interna.

Outro ponto positivo foi a atuação da jornalista Ana Paula Paiva. Demonstrou conhecimento do assunto com perguntas e réplicas ao entrevistado. Muito acima da média.

Entrevista de Eduardo Giannetti ao Valor Econômico

Instituto Millenium

Ana Paula Paiva/Valor

Eduardo Giannetti: resposta à crise trouxe alívio no curto prazo, mas “implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento”O economista Eduardo Giannetti não entra na onda de euforia em relação à economia brasileira. Professor do Insper, ele reconhece que o Brasil vive um momento positivo, mas teme a repetição dos erros que marcaram boa parte da história econômica nos últimos 50 anos. “É a história de um país com a vocação do crescimento, mas sem a vocação da poupança, que tenta desesperadamente contornar essa restrição por meio de algum tipo de esperteza, que logo se mostra limitada.” Para ele, começa a se criar uma situação parecida com as observadas nos governos de Juscelino Kubitschek (1956-61) e Ernesto Geisel (1974-79).

O atalho de Juscelino foi a inflação, enquanto Geisel usou a abundância de capital externo – os petrodólares – para fazer o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), colocando o pé no acelerador num momento em que o mundo inteiro se ajustava ao choque do petróleo, lembra Giannetti. Desses dois períodos, resultaram problemas graves, que prejudicaram posteriormente a economia do país.A dúvida de Giannetti é se o Brasil terá maturidade desta vez para transformar o momento favorável “num crescimento equilibrado”. O risco, alerta ele, é viver uma espécie de surto, que se interrompe rapidamente por conta de eventuais desequilíbrios – ou monetário ou nas contas externas. Um país que poupa pouco tem dificuldade em financiar o investimento, destaca Giannetti. “O capital externo, bem aproveitado, pode ajudar esse processo, mas ele é coadjuvante. E isso tem que ser feito com muito critério, se não gera problemas de insolvência externa.”

O economista diz ainda que o ajuste brasileiro à crise, com incentivo ao consumo privado e aumento dos gastos públicos, deu alívio no curto prazo, mas implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento. “Todo esse aumento do consumo privado e do gasto corrente do governo significa uma queda importante da poupança doméstica e da capacidade de investimento no futuro próximo”, afirma ele, que destaca outra grande fragilidade brasileira: o pouco esforço na formação de capital humano, evidente no fraquíssimo desempenho de estudantes brasileiros em testes internacionais de aprendizado.

Giannetti voltou há algumas semanas de Tiradentes, em Minas Gerais, onde passou quatro temporadas neste ano para escrever o seu novo livro, que trata da “relação entre o cérebro e a mente, tangenciando em alguma coisa a neuroeconomia”. Se tudo correr conforme o planejado, sairá no primeiro semestre de 2010. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O Brasil saiu rapidamente da crise, com o mercado de trabalho passando relativamente intacto. Por que o Brasil sofreu pouco?

Eduardo Giannetti: Em parte por razões circunstanciais e em parte por razões de mérito. Uma razão pela qual o Brasil foi pouco afetado é que não é muito integrado ao fluxo global de comércio, ao contrário do Chile ou mesmo do México. O México exporta 80% do que vende para o mundo para um único mercado, que é o americano. Eles vão ter neste ano uma recessão cavalar de 7%. A robustez do mercado doméstico protegeu muito o Brasil. Nós estávamos com as contas externas em ordem, com reservas que superam nossos compromissos externos de dívida pública e privada. Nós tivemos também uma política monetária que pode ter pecado pelo exagero em alguns momentos, mas nunca errou o sinal na direção do movimento. Isso nos permitiu reduzir os juros durante uma crise internacional, coisa que não se via no Brasil há tanto tempo. Houve também uma reação de política econômica que no curto prazo trouxe grande alívio, mas deixará sequelas e problemas olhando um pouco mais à frente.

Valor: Por quê?

Giannetti: O modelo brasileiro de ajuste à mudança do cenário externo foi o estímulo ao consumo privado e um aumento do gasto público, do gasto corrente. O gasto corrente do governo já havia sido contratado antes da crise, como o aumento das aposentadorias, do salário mínimo, o reajuste do funcionalismo. Por uma coincidência, isso se materializou durante a crise. Houve um estímulo ao consumo privado por meio da redução dos impostos que incidem sobre bens de consumo duráveis, além de uma pressão política do governo para que o sistema bancário estatal aumentasse a oferta de crédito, num momento em que o setor privado se retraía. O caminho de ajuste do Brasil não foi o melhor do ponto de vista de criar condições para um crescimento sustentado mais à frente, tanto que todo esse aumento do consumo privado e do gasto corrente do governo significa uma queda importante da poupança doméstica e da capacidade de investimento no futuro próximo. Esse é o ponto que me preocupa. Nós fizemos um ajuste que dá grande alívio e conforto no curto prazo, mas implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento.

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