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O assassinato de al-Mabhouh


Tradução de um informe de inteligência de Fred Burton e Ben West sobre o assassinato do líder do Hamas Mahmoud al-Mabhouh no dia 19 de Janeiro em Dubai. Será publicado em duas partes.

USANDO A INTELIGÊNCIA DO ASSASSINATO DE AL-MABHOUH

O assassinato do líder militante sênior do Hamas Mahmoud al-Mabhouh no dia 19 de janeiro continua gerando grande quantidade de discussão e especulação seis semanas depois do acontecido. A força policial de Dubai tem constantemente revelado novas informações quase que diariamente, o que tem feito que o assunto continue na mídia. A informação mais impressionante foi a liberação de quase 30 minutos de filmagem das câmeras de segurança que cobrem desde a chegada do grupo a Dubai, a vigilância de al-Mabhouh, o assassinato e a fuga do grupo 22 horas depois.

Pela última contagem, a polícia de Dubai afirma ter identificado 30 suspeitos de envolvimento no assassinato; aproximadamente 17 com fortes indícios de ligação com a operação através dos vídeos, ou como olheiros, organizadores ou assassinos, com os outros tendo conexões tênues baseadas em informações oriundas da polícia de Dubai. Em todo caso, a operação foi elaborada e requereu recursos e planificação de uma agência bem organizada, certamente trabalhando para algum país.

Pré-Operação

Enquanto o período de 22 horas exposto no vídeo demonstrou as capacidades táticas de vários times, dificilmente conta toda a história. Para confirmar a exata localização de al-Mabhouh no dia de se assassinato, a organização responsável pela operação teve que rastrear al-Mabhouh durante meses, senão anos. Isto só pode ser feito de três maneiras: vigilância técnica, utilizando material humano ou vigilância física.

A vigilância técnica de al-Mabhouh incluiria o monitoramento de seus emails, chamadas telefônicas e outras formas de comunicação eletrônica como transações online de cartões de crédito e reservas de viagens. Isto poderia indicar seu paradeiro presente e planos futuros, que proporcionaria uma chance para o time de assassinato antecipar sua localização. Com um grupo tão grande utilizado, uma cuidadosa coordenação e planejamento dos movimentos deve ter sido requerida para garantir que todos os membros estivessem no local sem chamar nenhuma atenção.

Porém a vigilância técnica tem suas limitações. Um agente experiente como al-Mabhouh (o qual foi alvo de duas tentativas de assassinato anos anteriores) é muito cuidadoso e deve ter precauções e limitado sua exposição eletrônica. A operação provavelmente usou material humano com laços próximos de al-Mabhouh que poderia corroborar as informações a possivelmente influenciar a movimentação do alvo, colocando-o na posição para a operação. Recursos humanos podem incluir colegas de al-Mabhouh no Hamas ou membros de grupos rivais como o Fatah (três palestinos suspeitos de serem membros do Fatah foram presos pelas autoridades de Dubai em virtude de conexão com o assassinato, indicando que esse grupo pode ter fornecido material de inteligência para a organização responsável pelo assassinato de al-Mabhouh). Outras pessoas podem ter sido recrutadas utilizando outros tipos de incentivos (incluindo dinheiro) sem saber as consequências de seu envolvimento. Tanto as operações de inteligência técnicas quanto as humanas devem ter sido dirigidas por oficiais operando fora do pais em localizações separadas do grupo operacional.

De acordo com a polícia de Dubai, a vigilância física foi conduzida por membros do time operacional durante visitas anteriores de al-Mabhouh aos Emirados Árabes Unidos. Vigilância física é uma parte crítica de qualquer ataque efetivo (sendo uma operação clandestina de inteligência ou um roubo de carro) porque fornece a oportunidade dos agentes ficarem familiarizados com o ambiente e reconhecer o alvo em seu “habitat natural”.

Depois que todo o dever de casa foi realizado para estabelecer as rotinas normais de al-Mabhouh e determinar sua localização e duração de estada em Dubai, o processo de coleta de inteligência moveu-se para a fase de execução e um time foi ativado.

A Operação

Antes da chegada de Mabhouh, os times de vigilância estabeleceram-se no aeroporto e em diferentes hotéis para ter certeza que conseguiriam obter confirmação visual do alvo. Baseado na inteligência obtida por visitas anteriores a Dubai, os planejadores colocaram times em dois hotéis aguardando por al-Mabhouh aproximadamente uma hora após sua chegada. A equipe do aeroporto começou a segui-lo assim que desembarcou, informando suas movimentações às outras equipes. Mesmo não sendo filmada, suspeitamos que uma outra equipe seguiu al-Mabhouh de carro. Para garantir o sucesso da operação, o time operacional usou grande quantidade de recursos para que o alvo nunca visse o mesmo rosto duas vezes. Quando foi estabelecido que al-Mabhouh iria ficar no Al Bustan Rotana, as equipes responderam abandonando seus outros postos e direcionando o foco para aquele hotel.

Quando al-Mabhouh foi identificado, o time “travou no alvo” e iniciaram os outros passos da operação.O primeiro time de vigilância observou al-Mabhouh se registrar e o seguiram até seu quarto, observando o número do quarto. Essa informação foi repassada a outros membros da equipe, que se registraram no quarto em frente de al-Mabhouh, o que lhes forneceu acesso direto ao alvo. A seleção desse quarto é interessante por duas razões. A primeira é que fica diretamente a frente do quarto de al-Mabhouh, dando à equipe o local perfeito para monitorar seus movimentos. Segundo, o quarto ficava diretamente atrás de uma câmera de vídeo que ficava apontada para a escada de emergência, dando condições para que a equipe de assassinato pudesse agir sem o perigo de ser filmada.

Enquanto isso, no lobby do hotel, as equipes de vigilância se alternavam no monitoramento dos movimentos do alvo dentro e fora do hotel. Em dado momento, um “olheiro” é visto seguindo al-Mabhouh na rua e informando via celular o tipo de carro em que ele embarcou. Essas equipes de vigilância, operando em duplas, usaram disfarces como chapéus, óculos escuros, barbas e roupas de ginástica para estabelecerem disfarces para a operação e mascarar suas identidades. Enquanto membros da equipe operacional foram identificados em circuitos fechados, chapéus e óculos escuros ajudaram a distorcer suas imagens e reduzir o já baixo risco de serem reconhecidos pelo alvo ou por qualquer equipe de segurança durante a operação.

Outra necessidade em uma operação como essa é a comunicação. Os vídeos de vigilância mostram as equipes envolvidas na operação usando telefones celulares para mandar mensagens de texto e comunicando-se com outros membros da equipe. De acordo com informes da polícia de Dubai, os celulares usados ligaram para um número na Áustria, provavelmente a central de suporte para a operação. Pode ter sido uma linha de conferência onde todos os membros operacionais poderiam discar para monitorar o movimento do alvo. É improvável que essa central seja na Áustria; provavelmente usou uma linha “Proxy” para mascarar sua verdadeira localização física.

Próximo: Assassinato e Escape e Potenciais Consequências.

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  1. março 4, 2010 às 5:36 pm

    Cena de filme. Essa operação da Moussad foi muito parecida com aquela de Eichmann em Buenos Aires no início da década de 60. Falei ontem com um amigo que esteve agora em fevereiro em Israel e foi super revistado pela polícia israelense na chegada por um simples motivo: ele esteve em Dubai em novembro.

    • vilarnovo
      março 4, 2010 às 5:42 pm

      Maia, não há provas que tenha sido o Moussad. Ou seja, foi o Moussad. 🙂

      Mas sério, para mim essa operação foi organizada pelo Moussad porém parece ter sido mais uma missão multi nacional do que qualquer coisa.

      Não duvido do envolvimento de outros palestinos e inclusive do Egito que também não vai muito com a cara do Hamas.

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