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O assassinato de al-Mabhouh – Final


Segunda e final parte sobre o informe de inteligência sobre o assassinato de al-Mabhouh em Dubai.

Assassinato e Escape

Aproximadamente às 20h30min do dia 19 de janeiro, após al-Mabhouh retornar a seu hotel após um encontro, a equipe de assassinato agiu. Era importante realizar a operação em tempo e maneira que desse a maior janela de oportunidade. Eles suspeitaram que al-Mabhouh iria pernoitar no hotel, o que significa que ninguém iria dar falta dele até a próxima tarde, dando tempo suficiente para escapar do país. A equipe realizou o assassinato discretamente, com o vídeo de segurança mostrando apenas dois agentes conversando casualmente a frente do elevador (um disfarce para monitorar o hall para possíveis distrações) – ou seja, nada fora do comum. Atitude é extremamente importante, e a habilidade da equipe em agir calma e naturamente e não chamar atenção dos agentes de segurança monitorando o circuito interno de TV assegurou que o ato permaneceu secreto até a equipe de limpeza do hotel encontrou o corpo mais de 17 horas depois que toda a equipe partiu de Dubai.

A equipe de assassinato utilizaram uma técnica que aparentemente confundiram a equipe médica que examinou al-Mabhouh, atrasando o anúncio do crime em nove dias. Esse atraso deu ao time operacional tempo suficiente para apagar seus rastros, possivelmente atravessando três ou quatro fronteiras, utilizando identidades falsas e esconderijos, tornando muito difícil para as autoridades de Dubai rastrear o movimento da equipe até seus destinos finais. Essa confusão parece ter sido criada pelo uso de um relaxante muscular chamado succinylcholine (também chamado de Suxamethonium), que, se usado em grande quantidade pode causar uma parada cardíaca, dando impressão que a vítima morreu de causas naturais. A droga também possui uma meia-vida muito curta, significando que seus traços se degeneram e desaparecem pouco tempo após o uso, tornando-a ideal para operações secretas como essa.

A equipe não foi capaz de realizar a operação no completo anonimato – é virtualmente impossível operar em um ambiente moderno se deixar algum tipo de vestígio eletrônico. A polícia de Dubai foi capaz de usar os vídeos de segurança do aeroporto, hotéis e de um shopping Center para rastrear a movimentação dos agentes e estabelecer suas identidades de acordo com os passaportes que usaram. Esses passaportes, que foram descobertos fraudulentos, tinham nacionalidade do Reino Unido, Irlanda, Alemanha e França – mas eram extremamente bem feitos, somente foram descobertos após o escrutínio do vídeo de segurança; oficiais da alfândega foram incapazes de detectar a fraude na chegada ou saída dos agentes. Além disso, os cartões de crédito utilizado por diversos agentes na operação estão ligados a uma empresa chamada Payoneer. O CEO da empresa é ex mesmo das Forças de Defesa de Israel e a Payoneer possui financiamento de uma companhia sediada em Israel.

A polícia de Dubai afirmou que conseguiu recolher DNA de pelo menos um membro da equipe de assassinato e impressões digitais de vários outros, fornecendo evidências que não podem ser alteradas como passaportes. Entretanto, o DNA só é útil quando pode ser comparado com algo. Se a polícia de Dubai não conseguir ligar o DNA e as impressões digitais com alguém, essas pistas não serão de muita valia.

Os passaportes também não fornecem muitas pistas para ajudar a rastrear os suspeitos. A descoberta que passaportes falsos britânicos, irlandeses, alemães e franceses foram usados criou um problema diplomático para Israel (o Mossad está no topo da lista de suspeitos), o que aumentou o chamariz da operação consideravelmente. Esta não é a maneira que uma operação clandestina deva ser executada. Mesmo que provavelmente os agentes nunca venham a ser capturados e entregues às autoridades dos EAU, o fato de que muitos detalhes do assassinato tornaram-se públicos, coloca em risco o caráter anônimo que deveria existir nesse tipo de operação.

Potenciais Consequências

Al-Habhouh dificilmente pode ser considerado com um bom caráter. Como membro sênior do braço militar do Hamas, traficante de armas e com ligações com o Irã, ele já se encontrava nas listas de alerta de terroristas dos mesmos países que reclamaram do uso dos passaportes falsos. Indignação pública é necessária e esperada desses países para resguardar sua face diplomática, porém dificilmente terão incentivos para punir Israel, se realmente este país está por trás do ataque. A polícia de Dubai e os Emirados Árabes Unidos, que certamente estão frustrados por que não irão conseguir resolver este caso insolúvel, dificilmente sentirão falta de al-Mabhouh. Seus esforços em se mostrarem indignados com o assassinato são mais incentivados pelo desejo em mostrar ação ao mundo Árabe, onde a causa Palestina possui mais importância retórica que estratégica.

A alta complexidade envolvida no assassinato, juntamente com o profissionalismo empregado, é evidência que foi executado por uma equipe de elite que não poderia ser feito sem ter patrocinado por um país. A habilidade na coleta prévia de inteligência, a junção de uma grande e bem treinada equipe de agentes, a falsificação perfeita de passaportes, o sucesso no escape (exfiltração) da equipe – tudo isso requer um grande e caro esforço que, acreditamos, excede a capacidade de qualquer grupo terrorista não nacional. Não se pode desconsiderar que o mais impressionante aspecto da operação foi a habilidade e a atitude da equipe empregada. Todos os membros eram profissionais.

Realmente, com tanto tempo já decorrido, se a operação foi patrocinada por um país, é altamente improvável que qualquer agente envolvido seja algum dia preso. Entretanto, países de todo o mundo estão oferecendo ajuda no caso, incluindo o Reino Unido, os Estados Unidos, Canadá e Austrália. Poucos agentes desses países acreditam que algum membro da equipe será algum dia preso, porém esse não é o real motivo para participarem das investigações. O que esses agentes querem é analisar os detalhes de como o grupo de assassinato e vigilância operou. Esses detalhes são de suma importância para operações de contra inteligência em países que possuem agências de inteligência em seu solo. As informações podem fornecer pistas para casos passados e futuros, pode ser usada para criar banco de dados em operações secretas, para que se alguma dessas pessoas aparecer inesperadamente em um aeroporto, hotel ou embaixada no Reino Unido, nos Estados Unidos, Canadá ou Austrália ou em qualquer outro lugar, os alarmes possam ser soados mais rapidamente.

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  1. março 5, 2010 às 5:11 pm

    Interessantes os métodos dos caras. Os EUA podiam aprender umas formas, digamos, mais discretas e seletivas de combater inimigos ameaçadores.

    E de quebra economizar com gastos militares em seu combalido orçamento.

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