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O jogo Esquerda x Direita


Sempre tive dificuldade de compreender a diferença entre esquerda e direita. É verdade que a esquerda, desde sempre, tomou para si o controle dessa definição, impondo sempre à esquerda aquilo que ela própria não considera de esquerda ou mais frequentemente tudo de ruim (vide Gustavo Corção). Por exemplo, em um dos comentários foi afirmado que “a educação sempre foi bandeira da esquerda”. E não seria da direita por quê? Quer dizer que a direita sempre se lixou para a educação? Ora, é só ver exemplos no mundo que mostram que isso esta longe de ser verdade absoluta.

O certo é que em países como o Brasil e outros na América Latina, a direita é sempre designada e nunca assumida. Resultado dos vários golpes militares que assolaram o continente principalmente durante a Guerra Fria.

Um dos aspectos que colocam por terra essa definição simplista de esquerda e direita é a economia. Muitos dos países que tiveram ditaduras militares em matéria econômica se aproximavam muito mais de preceitos econômicos de esquerda do que de direita. O nacionalismo é outra característica. Ser um nacionalista exacerbado te coloca em que lado? Direita ou esquerda? Ou em nenhum dos dois? Ou em ambos?

Meu amigo Luiz em seu excelente blog “De olho no fato” em um post sobre a Turquia comenta:

“Com relação a política interna, após o longo governo de Kemal Ataturk (1923-1938), que estabilizou e modernizou o país, voltaram a ocorrer instabilidades. De lá para cá foram 4 golpes militares bem sucedidos e diversos outros que não tiveram êxito. Regra geral, as ações dos militares tem como desculpa a luta contra a corrupção e o combate a medidas mais liberais ou anti-seculares. Ou seja, mal escondem sua ideologia de direita e ultranacionalista.”

Sinceramente não sei como ele conseguiu encaixar a direita nisso. Aparentemente ele caracteriza a direita apenas com golpes. Mas não há golpes de esquerda? E o ultranacionalismo? Não está presente também na esquerda?

Como exemplo podemos citar o pan-arabismo (pan arabismo? Panarabismo?) que foi um movimento que foi um movimento nacionalista, secular e estatizante no Oriente Médio e nasceu (ora bolas) na Turquia. Um grande representante desse movimento é o partido Baath. Sim, o mesmo partido de Saddan Husein. Agora, pergunte no Brasil se alguém acha que a ditadura de Saddan era de esquerda. Vão te chamar de louco. Porém acontece que o partido Baath possui vários acordos de cooperação com diversos partidos políticos de esquerda no Brasil como o PCdoB e com o próprio PT .

Como podemos ver essas definições simplistas não correspondem com a realidade.

Mas então não há ditaduras de direita? Claro que sim. Duas que podemos citar são as ditaduras do Chile de Pinochet em seus finais e a ditadura da Singapura. Em ambos os casos há a junção de um modelo autoritário que caracteriza uma ditadura, com conceitos econômicos de direita.

Na maior parte das outras ditaduras essa junção de fatores não acontece, como foi a ditadura brasileira, principalmente após a turma da ESG ter saído e a linha dura ter assumido. Podemos chamar de direita uma ditadura que fecha o mercado? Contrariando inclusive os interesses americanos? Que cria centenas de estatais? Que estatiza a economia?

Será que o fato dos militares terem combatido a extrema-esquerda os coloca diretamente na direita?

Logicamente não partirá da esquerda a correção desses “erros”. Obviamente isso é algo de intencional. Será muito difícil para a direita tirar esses conceitos simplistas do vocabulário usual. Mas a direita deve aprender a se defender disso, principalmente no Brasil onde ela é praticamente inexistente e mesmo assim continua sendo culpada por coisas que não fez e não faz.

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Categorias:Política Tags:
  1. ab
    março 6, 2010 às 7:25 pm

    bom.. a diferença maior entre direita e esquerda (no brasil) nao seria o liberalismo / igualitarismo ?

    • vilarnovo
      março 8, 2010 às 9:08 pm

      Os liberais também querem igualdade. Igualdade perante às leis. Igualdade de oportunidades nunca será conseguida pois os seres humanos são desiguais por natureza.

  2. kiko marinho
    março 7, 2010 às 4:31 pm

    Acho que direita e esquerda são utilizados pela similaridade (não igualdade) com a questão de progressistas vs. conservadores, particularmente na américa latina. Progressistas e conservadores nos EUA e Europa são algo bem diferente do que temos aqui, em que o fator de acesso de classes excluídas do processo econômico e social têm um peso muito grande na discussão. Na américa latina, temos sempre uma luta pela ampliação de direitos e acesso à cidadania (identificada como esquerda e com uma proposta de mudanças abruptas) e a conservação do ordenamento atual das coisas (ou sua reforma em doses homeopáticas, a longo prazo, e principalmente sem bagunça). Eu sou da opinião que a bagunça é realmente necessária em alguns momentos: se não fosse ela provavelmente os negros americanos somente poderiam beber nos mesmos bebedouros dos brancos lá por 2027. A sociedade avança dos dois modos. Outra questão que diferencia os dois são o individualismo tipo norte-americano (meritocracia, liberdades individuais extremas) com um senso de coletividade, com base no estado (a responsabilidade do estado em prover condições para que haja pelo menos um nível mínimode condições de vida para todos na população).

  3. março 7, 2010 às 8:27 pm

    Acho que a frase “educação sempre foi bandeira da esquerda” é minha, na caixa de comentários de outro post. Educação pública de qualidade e para todos – subentendido.

    Mas esquerda e direita são conceitos pra lá de problemáticos. Quase tanto quanto bem e mal. Aliás, os que se classificam como esquerda quase sempre o fazem como garantia de serem do bem, usando o termo direita como um xingamento a quem está do outro lado em alguma dicussão.

    Mas acho que em linha geral, existe uma esquerda que defende mais igualdade na distribuição dos recursos econômicos, contra uma direita que sustenta as desigualdades em diversos tipos de argumentos.

    Por outro lado, também existe outra interpretação para o conceito de esquerda (acho que é mais coerente na situação dos EUA), no sentido de liberalismo radical, ou libertarianismo. Defesa dos direitos individuais acima de tudo.

    Bem complexo o troço todo – afinal regimes totalitários e genocidas como os de Hitler e Stalin são normalmente classificados em extremos opostos do espectro político, o que não condiz muito com a realidade prática.

    Acho que existe ainda uma questão, ressaltada aí pelo kiko marinho relativa aos direitos de participação política: neste sentido esquerda é democrática (no sentido moderno da palavra) e defende participação popular mais ampla na política e no Estado. Direita é oligárquica, defende o controle decisório na mão de poucos.

    Tudo sempre passível de muitas incoerências e imprecisões.

    Aliás, se formos pensar bem, cadê a direita nas eleições presidenciais de 2010?

    • vilarnovo
      março 8, 2010 às 2:39 pm

      No Brasil? Não existe.

    • Edson de Lima
      março 18, 2010 às 2:13 am

      @André Egg, seguindo seu raciocínio que diz que esquerda é mais democrática e direita não, Cuba, China, Coreia do Norte, apesar de comunistas seriam de direita? E o Irã, seria o que? Estou também perdido nessa… sempre pensei que comunismo = esquerda.

      • março 18, 2010 às 4:42 pm

        Pois é.

        Precisa repensar esse negócio.

        Eu propus três tipos diferentes de classificação entre esquerda e direita:

        1) sobre distribuição de recursos (nesse caso os comunistas são esquerda)

        2) sobre direitos indiviuais (nesse caso só é esquerda uma estranha aliança entre anarquistas, libertários e liberais)

        3) sobre direitos de participação política (nesse caso são esquerda os grandes partidos dos países ricos ocidentais)

        É, sobretudo uma divisão bem problemática.

        Eu não tenho dúvidas em classificar Rússia, China, Cuba, Irã como regimes de direita. Autoristarismo, controle sobre o cidadão, violência arbitrária do Estado, inexistência de mercado regulado, educação sob tutela ideológica, corrupção eleitoral generalizada, clientelismo político deslavado, etc. etc. etc.

        Regimes de esquerda pra mim são os escandinavos, o Canadá, a Austrália, a Alemanha. E em grande medida, França, Inglaterra, EUA – esses já um pouco mais problemáticos por causa de práticas geopolíticas pra lá de escusas.

  4. André
    março 8, 2010 às 1:56 pm

    Pablo, em post passado eu disse que investimento “público” em educação sempre foi uma bandeira da esquerda. A direita sempre prezou a educação mas, no Brasil, sempre pregou a diminuição do estado por sua ineficiência. Somando 2 e 2 podemos inferir que o projeto educacional da direita teria como eixo o investimento privado e não o público.

    Com relação aos golpes militares, não é a política econômica posteriormente adotada que os definem como de direita ou esquerda, mas a ala política que lhes deu sustentação e causa.

    Para ser bem simplista, no caso do Saddam poderíamos dizer que era um ditador de direita por ser apoiado pelo EUA e não pela URSS. Não que uma coisa seja melhor que a outra, e vice-versa.

    “Será que o fato dos militares terem combatido a extrema-esquerda os coloca diretamente na direita?”
    Pode ser que não, mas isso os coloca, definitivamente, contra a esquerda. Principalmente, porque os militares não combateram apenas a extrema-esquerda, mas a esquerda, parte do centro e até alguns gatos pingados da direita.

    • vilarnovo
      março 8, 2010 às 2:31 pm

      André, sinceramente não acho que isso também tenha contecido. Nunca vi nenhuma pessoa de direita dizer que iria cortar investimentos em educação por conta de sua ineficiência.

      “Para ser bem simplista, no caso do Saddam poderíamos dizer que era um ditador de direita por ser apoiado pelo EUA e não pela URSS. Não que uma coisa seja melhor que a outra, e vice-versa.”

      Isso também não é lá muito certo. Saddam foi apoiado pelo mundo inteiro na verdade. Durante a guerra Irã – Iraque Saddam recebeu muito armamento e apoio russo (e francês e de outros países). Os russos apoiavam Saddam por ele barrar o movimento xiita do Irã. Eles tinham medo que a revolução iraniana se espalhace pelos países satélites da URSS (aAquele monte de *istão da vida).

      Na verdade fiquei com uma pulga atrás da orelha… Quando exatamente os EUA apoiram Saddam fora a guerra Irã-Iraque? Seguramente ao nacionalizar as indústrias petrolíferas em 72 ele não arrebatou muitos amigos no Ocidente.

      ““Será que o fato dos militares terem combatido a extrema-esquerda os coloca diretamente na direita?”
      Pode ser que não, mas isso os coloca, definitivamente, contra a esquerda. ”

      Concordo contigo. Com certeza de esquerda não eram. Apesar de economicamente serem muito mais chegados a ela do que a própria direita.

      E é esse o meu ponto.

      • André
        março 8, 2010 às 4:52 pm

        Bom, o Reinaldo Azevedo (a direita que mostra a cara) vive dizendo que o bandeijão da USP é cocô subsidiado. E não sei como conciliar o discurso da direita de redução do peso do estado e da inépcia dos professores com aumento de investimento na educação.

      • vilarnovo
        março 8, 2010 às 5:33 pm

        Ora, é só focar os investimentos do Estado naquilo que detarmina a Constiuição como função de Estado que é Saúde, Educação e Segurança.

        Como coloquei em um outro post, só em socorro à Petrobrás o governo colocará do Tesouro Nacional a metade do orçamento para a educação.

        E a única beneficiária será a Petrobrás e não os brasileiros.

        O foco está errado.

      • André
        março 8, 2010 às 6:09 pm

        Essa é uma proposta sua, ou da direita que exerce cargos? Eu gostaria ver a implantação de propostas desse tipo (desde que houvesse uma regulação bem feita em setores como transporte e energia), mas nunca vi um governo caminhar nesse sentido.

      • vilarnovo
        março 8, 2010 às 9:07 pm

        Que direita que exerce cargos???

        Aliás, não sou de direita. Sou liberal.

      • André
        março 9, 2010 às 1:45 am

        O DEM ainda exerce alguns cargos, mas pode ser considerado direita?
        O post era sobre esquerda e direita. Não se sinta ofendido, eu não o chamei de direita para ofender.

      • vilarnovo
        março 9, 2010 às 12:06 pm

        André, fique tranquilo… De maneira nenhuma me senti ofendido. Não acho que chamar alguém de direita seja ofensa…

        Grande abraço.

  5. marcos moraes
    março 8, 2010 às 6:13 pm

    Ser de esquerda vem de dentro. O Ruy Fausto define o de esquerda como aquele que não aguenta desigualdade e dá um exemplo matador:

    “como se pode aceitar que uma minoria receba aposentadoria integral, enquanto a ampla maioria recebe próximo de nada?”

    Ou seja, para ele ser de esquerda não é defender o Estado, a todo custo, mas lutar contra a desigualdade onde ela estiver.

    Sendo assim, o Pablo é de esquerda e o André não é.

    MAM

  6. março 8, 2010 às 10:19 pm

    Pablo,

    Primeiro, obrigado pela citação elogiosa.
    Garanto que a admiração é recíproca.

    Quanto ao caso específico, vou me repetir aqui a pergunta que você fez lá nos comentários e a minha resposta:

    “- Pergunta: fazer golpes militares, ser ultranacionalista é sinônimo de direita?

    – Resposta: Pablo,

    No caso específico da Turquia, ao qual eu me referi, sim. Sem a menor dúvida.

    Falando em termos gerais, existem alguns casos de militares que se diziam de esquerda (Portugal, por exemplo). Destes ditos de esquerda, uma parte tinha discurso nacionalista (Peru, por exemplo).

    Militares esquerdistas e ultranacionalistas é uma mistura que deve ter existido, mas, convenhamos, é bem rara (Etiópia e mais alguns casos na África ou Ásia).

    Mas, aqui pra nós, nada nem perto (em número) das ocorrências de militares direitistas e nacionalistas (em qualquer ênfase).”

    Constatação pura e simples.

    E, sim: milico golpista de esquerda é tão complicado quanto os de direita. Tudo começa com “boas intenções”, mas costuma dar errado.

  7. Edson de Lima
    março 25, 2010 às 1:53 pm

    @André, mais uma dúvida… se Irã, Cuba, China são de direita, o que raios o nosso governo atual, supostamente de esquerda, faz apoiando tais governos? Então o PT aqui é mais direita do que esquerda? Cada vez mais complicado, não?

  8. julho 5, 2010 às 8:35 pm

    Off topic(mais ou menos)

    Vilar
    Obrigado por ter citado meu blog em seu artigo, constatando a qualidade e elegância do seu texto, seguido por um grupo de comentaristas que completam e coroam seu trabalho, só posso me sentir honrado.
    Vinte anos de distância do Brasil provocam algumas distorções na nossa maneira de enxergar o país, além de criar alguma barreira de comunicação, em algum momento você não já fala mais a mesma língua…sua cortesia reduz um pouco estas distorções 🙂
    Making the long story short.

    Meus parabéns e meu obrigado mais uma vez pela referência.

    Will Sted
    Stuttgart – Alemanha
    Sted Blog.

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