Início > Atualidades, Economia, Política > No caminho do Terceiro Mundo

No caminho do Terceiro Mundo


Que os brasileiros, mesmo os jornalistas mais informados, pouco têm conhecimento da sociedade americana é um fato bem conhecido. Padecem do erro de tentar ver nos americanos algumas das características latino americanas, ou melhor, gostariam que os americanos fossem um pouco mais parecidos conosco. Para melhor, o que é bom, e para pior. Gostariam de ver a mesma leniência política e ideológica, a mesma relatividade moral, o mesmo estatismo, o mesmo “pai dos pobres”, a mesma dependência de poder central.

Acontece que os americanos são diferentes (ainda bem), possui uma história diferente, valores diferentes, objetivos diferentes, uma visão de mundo e de sociedade diferente da nossa.

Quando chega ao poder um cara como Obama, que é muito parecido com uma figura política sul americana ficam excitados.  É quase um sonho se tornando realidade. Ainda mais quando chega após uma figura patética quanto Bush.

Isso cega, completamente a análise política e econômica da atuação de Obama na Casa Branca. O caso do Health Care é bem característico. Não importa os absurdos incoerentes ditos por Obama, todo discurso dele é “histórico”. Não importa o que ele faz tudo leva nuance de algo místico e superior.

O Alon em seu excelente blog ao comentar sobre a aprovação do pacote de saúde democrata afirma:

Uma reforma na Saúde para incluir a ampla maioria dos até agora excluídos e reduzir o poder das companhias de seguros.

Que “ampla maioria” que ele se refere? De onde ele tirou essa informação eu não sei. Cerca de 15% da população americana não tem plano de saúde. Dificilmente isso é uma “ampla maioria”, mesmo somando aos 21% que afirmam que seus planos não cobrem suas despesas. Novamente 31% também não podem ser considerados nem mesmo maioria. Mas isso é o que menos importa nesse debate. Só coloquei isso para mostrar a falta de embasamento. Seguimos.

(…) A reforma na Saúde enfrenta a rejeição popular —vitaminada pela poderosíssima campanha dos lobbies. Por isso, o bom senso e o instinto de sobrevivência política recomendavam ao presidente, segundo o pensamento convencional, um recuo tático. Assessores sugeriram isso a Obama.

Primeiramente ele deveria dizer que lobbies ele está se referindo. Só se for do povo americano que desde sempre se mostrou desfavorável a ESSA reforma da saúde.

Vamos aos dados? Todos extraídos do instituto de pesquisa Rasmussen.

Um total de 49% dos americanos é favorável que os Estados entrem com ações judiciais contestando a obrigação de possuírem um seguro saúde.

Cerca de 54% dos americanos acreditam que os custos dos planos é um problema maior que a cobertura universal. E eles sabem que o plano de Obama vai aumentar esses custos e não diminuir.  Mais de 40% acreditam que o preço dos remédios irá aumentar e apenas 23% acreditam que vão cair. Guardem esses números que comentarei sobre eles mais tarde.

Isso mostra, também porque 54% dos americanos são contra o plano de Obama. Veja bem, não estou dizendo que são contra uma reforma na saúde, são contra ao plano de Obama.

Esses números, facilmente encontrados na internet mostram um perfil do povo americano totalmente diferente daquele que encontramos em Obamistas no Brasil e no mundo. Fato é que costumam se cercar de mídia que apoiam o governo Obama incondicionalmente como CNN, MSNBC e o New York Times. Acreditam piamente que a maioria da população apoia Obama, a despeito de todos os protestos que estão acontecendo. Até porque, segundo esses analistas, são todos racistas, retrógrados, fascistas, conservadores e etc. O resultado da eleição no quintal dos Kennedy não forneceu nenhuma dica a essas pessoas. Quer dizer até forneceu, eles que preferem realizar análises baseadas em seus desejos mais obscuros e não na realidade. Já mostrei aqui o desastre que será para os Democratas as próximas eleições ao Senado. Deixaram de lado, também que quase 20% dos Democratas votaram contra o plano de Obama. Foram 34 votos dos democratas contra. Mas isso passa batido nas análises realizadas.

Lembram-se do que o Alon afirma? Que Obama teve que lutar contra “lobbies poderosíssimos”? Eu gostaria, muito, muito mesmo, que ele dissesse que lobbies são esses. Das empresas de Seguro saúde que não são. Pois uma pessoa que faz uma análise da realidade, que acompanha a sociedade e a política americana poderia ter verificado que as ações das empresas de seguro e fabricantes de remédio subiram como nunca após a assinatura da lei.

A verdade agora é o seguinte. Só um total alienado acredita que o déficit americano irá cair com esse plano. É só ver também, que o dólar perdeu mais valor ainda.

Humm, estranho não é? Ou não?

===================

Update

Outra coisa que é incompreensível é a opção por ignorar que a impopularidade alta de Obama nos EUA deve-se, também, a essa reforma da saúde. A maioria dos Obamistas dizem que foi uma grande “vitória” para Obama, um ponto de mudança na curva…

De onde vem essa análise não faço a menor idéia. Obama vai gastar milhões na propaganda de seu projeto, aliás o que já é algo estranho. Aprovar o que grande parte do povo americano não quer e depois tentar vender aquilo que foi enfiado goela abaixo.

No próximo mês coloco novamente as pesquisas de popularidade. Veremos então…

Anúncios
  1. Relances
    março 25, 2010 às 3:42 am

    “Uma reforma na Saúde para incluir a ampla maioria dos até agora excluídos e reduzir o poder das companhias de seguros.”

    “Que “ampla maioria” que ele se refere? De onde ele tirou essa informação eu não sei. Cerca de 15% da população americana não tem plano de saúde. Dificilmente isso é uma “ampla maioria”, mesmo somando aos 21% que afirmam que seus planos não cobrem suas despesas.”

    É evidente que o Alon fala da ampla maioria “dos até agora excluídos”, ou seja, a ampla maioria dentro dos 15%. Leia de novo a frase dele.

    Quanto às pesquisas, oras, são de opinião pública. Não dizem nada a respeito do plano em si. Nada. Se ele é ruim, não serão pesquisas a demonstrá-lo. O que elas podem dizer são os motivos das pessoas serem contra, nada mais.

    Já a questão dos lobbies… Será mesmo que é um dado sólido a subida das ações das empresas? Será que isso se sustenta no médio e/ou longo prazo? Porque lobbies anti e pro health care havia, isso é inegável.

    Enfim, para mim um grande problema desse plano é a obrigatoriedade da pessoa fazer um plano de saúde. Isso é contra meus princípios. Eu, por exemplo, não tenho plano e não faço questão. E dificilmente irei ao SUS. Aliás, acho que não vou a um médico há mais de ano.

    (uma última sobre as pesquisas: perguntaram aos que não têm plano de saúde separadamente, assim, só para a gente poder ter uma noção?)

  2. ab
    março 25, 2010 às 3:15 pm

    tem que levar em conta também que a saúde nos estados unidos era ruim se comparada aos paises europeus e com um custo muito mais elevado, em torno de 15% do PIB.

    http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2010/mar/22/us-healthcare-bill-rest-of-world-obama

    e todos esses valores, historia, visao de mundo “diferentes” do povo americano é uma coisa boa mesmo? o Mauricio Santoro comentou no blog dele que historicamente os estados unidos foram uns dos primeiros a criar politicas de proteção social, mas com o passar do tempo ficaram bem pra trás em relaçao aos paises europeus. o link do post é esse: http://todososfogos.blogspot.com/2010/03/reforma-obama-na-saude.html

    • vilarnovo
      março 25, 2010 às 6:58 pm

      Gostaria de conhecer estudos que afirmem isso. Para mim é lenda.

  3. kiko marinho
    março 27, 2010 às 9:13 pm

    Bom, sobre levar em conta pesquisas para avaliar se o plano é bom ou não, que tal você olhar as pesquisas que ainda hoje apontam que o povo americano acredita que Sadam estava envolvido com a Al Qaeda, que tinha armas de destruição em massa, e por aí vai. Se você procurar bem, vai achar um monte de gente que acredita em Adão e Eva (o que não diz nada sobre o plano). Depois de uma bem engendrada campanha de terror feita pela mídia republicana e bancada pelos lobbies que você diz não existirem (e que também contribuem para políticos democratas). Quer dizer que que existe discussão dentro do partido democrata e seus deputados expressam suas opiniões através do voto. Ôpa! eles não são o PC Chinês! Boa conclusão. Mas não diz nada sobre o plano. Procure na internet, você vai ver que despesas médicas são a maior causa de auto-falência. Que há um número grande de pessoas que morre, anualmente, por falta de atendimento médico, por não ter dinheiro para pagar atendimento adequado (sei, você vai dizer que aqui é universal e as pessoas morrem do mesmo jeito, mas isto não diz nada sobre o plano). E por que as ações não subiriam? O plano por acaso era para acabar com elas? As empresas continuam tendo seu mercado, o que deprimia as ações era justamente o limbo regulatório, com as incertezas quanto ao processo. Quando acabou e a regra foi aprovada, as ações sobem. Para variar isto não diz nada sobre o Plano. Finalmente, o seu texto é um amontoado de colateralidades, boatos e fatos sem conexão com o que realmente o plano entrega, sem uma linha sequer sobre o que você não gosta no plano. Podia fazer um post sobre isso. Até agora, você não disse nada sobre o plano.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: