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Tea Party


O movimento Tea Party, que teve início a mais ou menos um ano, está abalando alguns pilares da estrutura política americana. Seu nascedouro não foi algum partido político, e sim nas comunidades e pequenos grupos parcamente organizados. Deu voz a anseios e ao descontentamento de grande parcela da população americano e não poupou políticos democratas e nem mesmo republicanos.

Em uma era pós George Bush, o descontentamento dessa parcela se mostrou bem específico. O principal alvo não poderia ser outro senão a condução do governo pelo partido democrata e suas políticas intervencionistas e estatizantes, o que para muitos contraria a Constituição Americana. Nós sul americanos, criados de acordo com a lógica ibero católica, não conseguimos compreender muito o sentimento do povo americano e seu respeito à Carta Magna e por conta disso muito se erra ao avaliar esse movimento.

O mais comum, na imprensa do Brasil, ao se referir ao Tea Party são adjetivos como “extrema direita”, “antigoverno” e até mesmo “racistas” e “fascistas”. Existe toda uma lógica por conta disso. Primeiramente os detratores do movimento não o conhecem. Simplesmente falam sobre algo que não procuraram entender. Muitas das informações são oriundas da CNN, da MSNBC ou do New York Times. Esquece-se que essas mídias são mídias de apoio ao atual governo americano.

Outro ponto em que erram, e isso é básico para se avaliar o crescimento dos Tea Parties, é o entendimento da eleição de Obama. Muitos acreditavam que Obama foi eleito por representar uma grande mudança na crença do povo americano, isso está longe de ser verdade. A eleição de Obama nada mais foi que uma eleição plebiscitária. Contou com votos não só dos democratas americanos, mas também com os independentes e até mesmo de eleitores tradicionalmente republicanos. Todos estavam fartos de Bush com razão e não viam nos candidatos tradicionais republicanos algo que significasse uma mudança na estratégia de condução do país por aquele partido.

Porém a emenda ficou pior que o soneto. Logo no início Obama se mostrou incapaz de realizar as mudanças que afirmara em sua campanha. Guantánamo, Iraque, Afeganistão. Uma a uma suas promessas de campanha não foram realizadas. Mas o pior estava por vir e se chamava Heath Care. Toda a condução do assunto foi no mínimo desastrada. Apoiado em uma maioria absoluta nas câmaras legislativas o governo Obama tocou o assunto com um autoritarismo que não agrada aos americanos. Pior, seu programa era (e é) tão ruim que nem mesmo conseguia unanimidade dentro de seu próprio partido. Imaginou-se que a população americana queria ter uma socialdemocracia ao estilo europeu. Isso está longe da verdade. E para conseguir passar seu pacote de maldades, Obama teve que subornar até mesmo seus companheiros de partido. Cito um exemplo: após aprovado no congresso, o Health Care teve que ser modificado no Senado. No Brasil, as notícias eram por causa de problemas que os republicanos (sempre eles, bobos, feios e maus) estavam causando. Mentira. Um dos problemas do pacote foi ter que retirar um desvio de verba adicional do Medi Care, um dos programas de saúde já existente, para o Estado de um deputado democrata em troca de seu voto. O assunto foi tão escandaloso para os americanos que até mesmo o impedimento do deputado foi pensado.

Foi dentro desse contexto que o movimento Tea Party nasceu e se desenvolveu. Apenas uma pequena olhada nas pesquisas de opinião que são divulgadas quase que diariamente nos EUA já seria suficiente para colocar por terra vários mitos que foram devidamente criados e manipulados para denegrir o Tea Party.

Gosto muito de ler essas pesquisas, pois elas mostram bem o grau que separa a maturidade política brasileira da americana. Se aqui nosso presidente depois de quase oito anos de mandato ainda usa uma desculpa de “herança maldita” do governo anterior, lá os americanos não possuem essa leviandade. No início do ano 84% dos americanos acreditava que a situação de crise atual era responsabilidade do governo anterior, hoje esse número está em 63%.  Recentemente uma pesquisa mostrou que 45% dos americanos culpavam Obama pela situação econômica atual enquanto 49% culpava Bush. Pela primeira vez o índice de culpabilidade de Bush saia dos 55%.

Toda a condução do Health Care foi desastrada. O povo americano não queria aquele tipo de mudança. Não estou dizendo em absoluto que não queriam que mudanças no sistema de saúde no país fossem feitas, apenas que as mudanças propostas – talvez imposta fosse a palavra apropriada – não eram aquelas que desejavam.

Atualmente 56% dos americanos são favoráveis a repelir a lei. E isso acontece inclusive em estados majoritariamente democratas ou que votaram com Obama nas eleições. 51% dos habitantes de Nova Jersei são contra a lei. 501% dos moradores de Nova Iorque são  contra a lei. Esses números passam batido pela imprensa nacional e são desconhecidos da maioria das pessoas que tratam do assunto.

A atuação das redes de informação de apoio a Obama é um caso a parte. A CNN, maior porta voz do governo, tem hoje quase a metade da audiência que possuía no ano passado. Uma das jornalistas da rede, ao entrevistar um homem que estava em um protesto do Tea Party em Chicago perguntou: “Você sabia que você tem direito a $400 dólares?”.  A pergunta é bem característica do que está acontecendo hoje nos EUA. É um embate de que tipo de sociedade querem os americanos. Será que a jornalista chamada Susan Roesgen achou que por ter “direito” a receber $400 dólares o homem deveria calar sua boca, ir para casa e agradecer a Obama? Ou será que ele entende que esses $400 dólares na verdade vem de seu bolso? Ou que possivelmente, e isso já está sendo decidido, ele terá que arcar com um aumento de impostos para bancar o programa de Obama? Aliás, outra promessa de campanha quebrada.

Na verdade é essa a encruzilhada. Os Tea Parties entendem que a intenção de Obama é aumentar a dependência dos cidadãos ao governo e evocando a constituição e os ensinamentos dos Faunding Father repelem isso fortemente. Essa é a chave para entender o movimento.

Não discordo que muitos falcões republicanos estão se aproveitando para angariar crescimento político com o Tea Party. Sarah Palin é o nome mais evidente. Porém isso é de conhecimento de muitos. Não é incomum encontrar artigos de líderes civis que alertam para isso. Como também é comum republicanos acharem o movimento “liberal demais”. É do jogo político. A resposta para tudo isso será dada nas próximas eleições e o cenário é bem preocupante para os democratas.

Concluindo, podemos dizer que o movimento Tea Party é algo de muita importância dentro do cenário político americano nos dias de hoje. Se continuará sendo depois ninguém pode prever. Alguns dizem que o movimento dará origem a um novo partido. A atual situação da política inglesa, com o crescimento do Partido Liberal que hoje faz frente aos tradicionais partidos conservadores e trabalhistas mostra que essa possibilidade é bastante real. O que não se pode fazer é julgar o movimento com parâmetros simplistas e preconceituosos, oriundos muito mais da ignorância do que de uma análise propriamente dita. Quem fizer isso pode ter certeza que irá se surpreender muito.

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Categorias:Atualidades, Política Tags:
  1. abril 22, 2010 às 2:43 pm

    Pablo, esse pessoal do tea party tem muita paranóia na cabeça. Muitos – evito generalizações — consideram Obama comunista e comedor de criancinha. Isso não é verdade. Quanto ao Afeganistão e Iraque, Obama pouco pode fazer. Não dá para simplesmente retirar as tropas de lá, abandonar o barco e deixar o radicalismo tomar conta.

    • vilarnovo
      abril 22, 2010 às 5:14 pm

      Não sou eu que vou dizer que não há extremistas no movimento. Em qual não há? Mas nem de longe representam o “core” do Tea Party. Também acho que não dá para simplesmente tirar as tropas de lá. A questão toda é que em sua campanha Obama não só disse que havia como ele mesmo estipulou um prazo. Foi um compromisso dele. Se já se sabia que não haveria como ele mentiu. E é exatamente esse ponto.

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