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Acordo nuclear do Irã: tremenda bola fora


Esse é um assunto extremamente técnico e complexo e que está sendo tratado de forma politiqueira e perigosa pelo atual governo. A cientista brasileira Elizabeth Koslova, que é especialista em programas espaciais tendo trabalhado em países como a Rússia e a China entende muito do assunto e nos deu uma aula.

O que está acontecendo é o seguinte:

Para se ter uma bomba nuclear é necessário dois tipos de combustível. Urânio enriquecido acima de 90% ou plutônio. Enriquecer urânio a 90% é caro e demora, foi utilizado no projeto Manhattan como pulverização de risco, não se sabia ao certo se uma bomba de plutônio com a tecnologia disponível na época seria possível nem se urânio a 90% seria viável, então se tentou as duas coisas e ambas deram certo, gerando duas bombas tecnicamente distintas: Fat Man (plutônio) e Little Boy (urânio).

Desde os anos 50 o caminho pelo qual quase todas as bombas atômicas são feitas é pelo uso do plutônio. Para obter este combustível coloca-se urânio em um reator e dentro de algum tempo ele produz plutônio.

A questão é que tipo de urânio você precisa colocar em função do modelo de reator. Para reatores de água leve pressurizada coloca-se urânio enriquecido. Para reatores de água pesada ou grafite coloca-se urânio natural, ou seja, sem enriquecimento.

Os engenheiros iranianos assim como seus colegas do projeto Manhattan sabem que tem muitos desafios técnicos proporcionais a sua tecnologia disponível, então decidiram por dois caminhos diferentes.

O primeiro é onde o urânio é retirado de três minas na região central do país e levado a uma localidade chamada Ardacam, lá é purificado e gerado o que chamam de yellow cake. Após esse processo é levada a Fasa e feita a conversão para hexafluoreto de urânio que é enriquecido em Ramandeh. Este urânio volta à Fasa onde são montados os conjuntos de combustível que irão abastecer a usina de Bushehr. Esta usina está em operação desde o ano passado.

Este caminho é análogo ao brasileiro desde a mineração à usina o processo é eminentemente civil. O único jeito de construir uma bomba por este caminho é retirar o plutônio da usina de Bushehr que é fiscalizada pelos russos e nem mesmo os EUA tem desconfiança quanto à honestidade russa neste processo.

O segundo caminho é o que pode levar o Irã à bomba.  O caminho do urânio é o mesmo desde as minas na região central até a conversão em yellow cake em Ardacam. Porém em Arak, próximo a Teerã há um reator de água pesada sendo construído, este tipo de reator utiliza urânio natural (que não passa pelo processo de enriquecimento e, portanto fora do controle externo de qualquer país) e a água pesada que é fabricada em Kondabh (também próximo a Teerã).  Ao fabricar água pesada o Irã não precisa negociar com exportadores deste tipo de insumo da indústria nuclear como a Argentina ou o Canadá.

E as suspeitas recaem justamente neste reator em Arak. O primeiro ponto é sua pequena potência. Ele possui 40MW de potência térmica o que dá menos de 5MW de potência útil, sendo capaz de fornecer energia a uma cidade de não mais que 40 mil habitantes. O segundo ponto é a utilização de urânio natural, por ser moderado a água pesada, livre dos percalços políticos e tecnológicos associados ao enriquecimento de urânio.

O terceiro ponto é sua proximidade de Teerã, um local com pouca estabilidade sísmica – onde normalmente não se constrói  reatores por motivos óbvios – mas que é mais facilmente defendido de um ataque aéreo pela proximidade com a capital. O reator de Bushehr, por exemplo, está a 1300 km de Teerã, às margens do Golfo não é um lugar fácil de ser atingido por um inimigo, mas é construído em um dos únicos lugares sismicamente estáveis no Irã e por ser um reator comercial não é um alvo militar legítimo.

O atual acordo de troca de urânio enriquecido em solo turco muda algo apenas ao primeiro caminho associado à usina de Bushehr que tem a Rússia como fiadora, porém não muda absolutamente nada em relação ao reator de Arak que opera com urânio natural que não necessita de enriquecimento.

EUA e a Rússia sabem disso, sabem que esta ofensiva diplomática brasileira dará ao Irã um crédito político junto a comunidade internacional, porque afinal das contas o “Irã cedeu” em alguma coisa.

Cedeu em um aspecto que nada influencia seu caminho para a bomba. A única coisa que o atual governo brasileiro fez foi irritar os países que defendem sanções ao Irã, pois nada impede que o Irã de conseguir sua bomba, pelo contrário irá fornecer um tempo precioso para o governo iraniano.

Porque EUA e Rússia não criticam o Brasil abertamente? Em um primeiro momento para não parecer que estão com dor de cotovelo diplomático, até porque não estão; o que Lula fez foi ajudar Ahmadinejad a parecer mais “flexível” perante o mundo enquanto seu plano para o desenvolvimento da bomba continua inalterado.

O reator de Arak fica pronto daqui a 12 meses bem como a fabricação de água pesada em Kondabh. Estes são os alvos mais estratégicos em um eventual ataque contra o Irã. Até 2015 haverá plutônio suficiente para a produção das primeiras ogivas. A bomba atômica do Irã está com seu make-up de engenharia pronto, falta o combustível e o iniciador de nêutrons.

Essas informações não são oriundas dos EUA e sim dados de inteligência russa, país que coopera com o Irã em programas nucleares civis, mas que tem colocado mais energia política e diplomática nos últimos cinco anos para evitar um Irã nuclear. Sabedoria política que sobra em Moscou e falta em Brasília.

Recado dado.

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  1. maio 20, 2010 às 2:41 pm

    Não entendi exatamente como você obteve esse texto, Pablo. Ela escreveu com exclusividade pro Fala Aí!?

    • vilarnovo
      maio 21, 2010 às 12:18 pm

      Não, a Koslova é bem conhecida nas listas de assuntos militares. Suas informações são bem confiáveis, por isso coloquei aqui.

  2. André
    maio 20, 2010 às 6:39 pm

    Esse acordo é aquele que havia sido proposto pelos EUA ano passado e recusado pelo Irã? Se essa Elizabeth Koslova estiver correta (é sempre bom confirmar as fontes), parece que todo mundo pisou na bola. Mas vendo pelo lado do Irã, a bomba atômica parece ser a única forma de escapar de um destino como o do Iraque.

    • vilarnovo
      maio 21, 2010 às 12:20 pm

      Sei não André. Os EUA não possuem capacidade alguma de invadir o Irã. O “máximo” que pode acontecer são ataques aéreos nas instalações nucleares. Uma invasão para mim parece algo bem improvável.

      • André
        maio 21, 2010 às 1:32 pm

        Um ataque aéreo ainda é um ataque. Nenhum governo que se preze vai abdicar de tentar evitá-lo, se achar que ele é provável. E os EUA já estão reforçando sua presença na região. A mensagem que fica dessa bagunça toda é que fazer a bomba é a única saída para o Irã.

      • maio 21, 2010 às 2:59 pm

        Na verdade não. Siceramente acho que os EUA ao forçarem as sanções estão procurando um jeito de impedir que Israel ataque o Irã da mesma maneira que atacou o programa nuclear iraquiano.

        O que eu acho sinceramente, é que o regime persa precisa dessa retórica para se manter forte. Não é novidade que ditaduras impopulares necessitam de inimigos externos nem que sejam imaginários para se legitimarem. Se eu acho que eles vão construir a bomba? Não, não acho. Porém acredito que eles vão pelo menos tentar a capacidade de construi-la.

        Os EUA, com sua mania de xerife do mundo fazem de maneira perfeita esse papel de inimigo externo. Mesmo que em alguns pontos sua política externa beneficie – e muito – os iranianos como é o caso do Iraque.

        É uma dança, os iranianos pressionam, os EUA contra-atacam, os iranianos recuam, permitem por algum tempo as inspeções, depois param, criam um caso, dizem que são perseguidos, os EUA negociam e por aí vai.

        Nisso o regime iraniano tira do foco a brutalidade, os assassinatos contra opositores, as fraudes em eleições, a corrupção endêmica etc.

        Não é nada novo.

  3. maio 21, 2010 às 7:23 pm

    Por coincidência escrevi, um dia antes deste, texto a respeito desse acordo no meu blog. Para não variar, minha análise é quase totalmente oposta.

    Água pesada é produzida em outros países que, talvez por serem na maioria consumidores e não produtores de petróleo, não despertam ira ou suspeitas comprometidas com intenções não declaradas.

    Do mesmo modo que o Iraque foi acusado, antes de sua invasão criminosa, de possuir armas de destruição em massa, o Irã é considerado suspeito e até formalmente acusado de estar em preparo de armas nucleares. Mas são omitidos dos planos os poços de petróleo que, claro, seriam mantidos intocados em eventual ataque criminoso.

    Nos últimos dias foram iniciadas as apresentações teatrais para tornar verossímeis as falsas acusações à Coréia do Norte pelo suposto e mentiroso ataque ao barco-patrulha da Coréia do Sul, conhecido satélite dos interesses norteamericanos. A Coréia do Norte não produz petróleo, mas é perfeita “moeda de troca” para barganhar com a China o apoio às sanções contra o Irã ou omissão em caso de ataque criminoso.

    Paquistão e India produziram bombas com a devida complacência do império decadente, porque o armamento de ambos equilibraria a geopolítica regional e………..nenhum deles tem produção de petróleo capaz de atrair outros interesses.

    Se o Irã é acusado de possuir regime regado a brutalidades, é necessário admitir que o Paquistão nunca foi modelo de democracia e liberdade. Um pôde construir e desenvolver todo o ciclo nuclear e o outro é sabotado desde o início de suas pesquisas. Um pouco de lógica, coerência e simetria permite, até para leigos, detectar onde está o interesse principal da questão.

    Para tornar acessível e isento de dúvidas o motivo da campanha internacional movida contra o Irã, talvez seja conveniente apresentá-la em outro idioma : OIL.

  4. maio 25, 2010 às 6:00 pm

    Pois sabe que gostei da aula da Koslova?

    Pena que o tema não tenha absolutamente nenhuma relação com o acordo costurado pelo Brasil.

    • vilarnovo
      maio 25, 2010 às 6:30 pm

      Porque não?

  5. filipe
    maio 27, 2010 às 10:00 pm

    Este é o texto furado sobre o caso do Irã mais legal que eu li. Entendo como os termos técnicos e dados científicos, além do mistério das “fontes da inteligência russa” exercem um fascínio na galera. Só que: EUA e Rússia estavam no grupo que propôs originalmente o acordo que foi depois fechado pelo Brasil e Turquia, e que segundo a Koslova era inútil desde sempre; Obama pessoalmente encorajou o acordo (e como assim os EUA não critica abertamente o acordo? Mme Clinton não tem sido exatamente elogiosa ao Brasil); a Rússia acabou de declarar que apóia o acordo como forma de solução diplomática; na descrição do artigo, Moscou tem agido de forma sábia para evitar um Irã nuclear, isto enquanto trabalha contra sanções mais fortes, fornece equipamentos e tecnologia nuclear e vende armas a rodo para o Irã (sinceramente, este nível de sabedoria política me escapa).
    O acordo é um esforço genuíno de Brasil e Turquia para reengajar o Irã em algum tipo de negociação. Ninguém disse que resolve tudo, mas abre espaço para que seja negociada a volta das inspeções e cooperação com a AIEA do Irã, que é membro do TNP. Aas sanções propostas são tão fracas que nem Mme Clinton acredita nelas, só foram propostas para o público interno americano achar que o Obama é firme com o “eixo do mal”.
    O texto leva somente a uma conclusão possível: a bomba do Irã é iminente (a “engenharia” já está pronta, o iniciador de nêutrons a gente consegue ali na feira de Acari!), falta pouco; sanções, como temos visto desde sempre, não adiantam nada; vamos bombardear o Irã! E veremos um monte destes textos na internet justificando a posição daqueles que somente querem vender alguns mísseis a mais para as forças armadas americanas. E bola fora é a do Brasil…

  1. maio 25, 2010 às 3:07 am

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