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Coréias: guerra eminente?


Não foi nenhuma surpresa a relatório elaborado por consultores internacionais que corroboraram a acusação da Coréia do Sul de que sua Corveta Cheonan havia sido atingida e afundada por um torpedo lançado, provavelmente, de um minissubmarino norte coreano causando 46 mortes. As acusações de praxe já começaram, mas alguns aspectos importantes devem ser considerados nesse conflito.

O primeiro deles é a atuação do Presidente Sul Coreano Lee Myung-bak. Lee sempre foi muito crítico e até mesmo hostil ao país irmão, porém tem tratado o assunto com maestria. Logo após o incidente não fez acusações, indicando que somente após as investigações algo poderia ser feito. Chamou especialistas de outros países para analisar os fragmentos encontrados no local do ataque e mesmo após as descobertas tem se mostrado pragmático e sem arroubos populistas. Tem manobrado eficientemente na ONU e entre seus aliados. Até mesmo a China, protetora dos Norte Coreanos, ficou em situação difícil e é capaz de apoiar sanções contra o governo de Pyongyang.

Uma das consequências desse ataque foi frear a aproximação que a Coréia do Sul realizava com seu país irmão. Esse processo foi batizado de “Sunshine Policy” e consistia em medidas como a criação de centros industriais com trabalhadores de ambos os países e a liberação de tráfego de trens entre as cidades.

Os motivos desse ataque ainda são nebulosos. Algumas opções aparecem e não são nada encorajadoras. Uma guerra entre os dois países parece algo bem distante. Seria suicídio para o regime do norte e altamente custosa para o regime do sul. Não interessa, a princípio, a Seul uma reunificação nessas bases. Apesar de ser uma importante economia mundial, a Coréia do Sul não teria os recursos necessários para englobar um país tão atrasado economicamente e socialmente quanto a Coréia do Norte. Seul não é Bonn. Pyongyang não é Berlim.

Um aspecto que não devemos esquecer foi o fracassado pacote econômico elaborado pelo governo Norte Coreano no ano passado. Esse pacote proporcionou algo bastante incomum em um regime brutal quanto o regime comunista norte coreano: vários protestos irromperam em todo o país e foram reprimidos com força mortal pelo governo de Kim Jong Il. Outro ponto foram os discursos do próprio Kim Jong Il em que afirmava que o modelo norte coreano deveria privilegiar também o bem estar da população. Isso seria uma volta aos desejos de seu pai em seus últimos dias de vida. Esses discursos podem não ter agradado a elite militar da Coréia do Norte que possui uma qualidade de vida muito superior ao restante da população.

A doença de Kim Jong Il e sua substituição por seu filho Kim Jong-um também acrescenta mais molho nesses acontecimentos.

Ao consideramos o ataque propriamente dito podemos ver que não foi algo ao acaso. Escaramuças entre os dois países já haviam acontecido antes com morte de ambos os lados. Porém uma coisa é o tiroteio entre duas embarcações de guerra ou o tiro efetuado por um tenente norte coreano contra um turista. O ataque realizado por um minissubmarino, adentrando águas territoriais sul coreanas muito provavelmente foi autorizado por alguém de alta patente. Teoricamente essa autorização só poderia ter vindo de Kim Jong Il e nisso podemos imaginar dois cenários. O primeiro deles é Kim Jong Il autorizando o ataque como represália pela morte de dois marinheiros norte coreano em uma das esfregas navais entre os dois países. Nesse caso faltou tato para o governo norte coreano ao escolher a melhor maneira de realizar um ataque. O uso de um torpedo de fabricação chinesa também não foi a melhor das opções, não tanto pelo uso da arma em si, mas pelo simbolismo que isso denota. Esse uso deixou a China em uma posição bem delicada nesta situação.

Não podemos esquecer, também, que o atual Secretário Geral da ONU é um sul coreano que está se dedicando pessoalmente neste novo conflito. Já há informações de dentro da ONU que dizem que Ban Ki-moon está se dedicando pessoalmente, inclusive se reunindo com membros da delegação chinesa.

O outro cenário talvez seja mais sombrio. E se o ataque não foi ordenado por Kim Jong Il? E se esse ataque foi ordenado por um grupo de militares de alta patente descontentes ou com interesses dentro do governo norte coreano? Essa possibilidade, em minha opinião, me parece bem viável a luz dos últimos acontecimentos na Coréia do Norte. A intenção seria colocar o governo de Kim Jong Il em uma situação onde os privilégios dos militares seriam garantidos por uma situação de quase guerra. As mobilizações militares já começaram em ambos os países. Outro motivo seria um alerta dado pelos militares a Kim Jong Il de que quem realmente comanda o país são os militares. Isso demonstraria que o governo é apenas uma marionete dos militares em postos chaves na política e na economia norte coreana. Visaria também dizer para Kim Jong Il que se ele quiser que seu filho se torne o próximo ditador do país, ele tem que se comportar.

A verdade é que teremos que esperar os acontecimentos futuros para compreendermos o total avanço da situação. Mas a verdade é que enquanto o mundo se concentra no teatro iraniano, o conflito pode estar na península coreana.

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  1. maio 25, 2010 às 6:15 pm

    Precisamos urgentemente mandar nosso pop presidente fazer um acordo com Kim Jong II e resolver definitivamente essa questão.

  2. Vinícius
    maio 25, 2010 às 9:55 pm

    “Seul não é Bonn. Pyongyang não é Berlim.”

    Imagino estar invertido, não?

    • vilarnovo
      maio 26, 2010 às 12:03 am

      Vinícius,

      Acho que não. Bonn era capital da Alemanha Ocidental, enquanto Berlim Oriental permaneceu como capital da Alemanha Oriental. Dada a reunificação Bonn deixou de ser a capital e passou a ser Berlim.

      • Vinícius
        maio 26, 2010 às 3:56 am

        Sim, mas no caso de uma reunião coreana dificilmente Seul seria a Bonn da vez. E Bonn nunca foi a cidade mais importante da Alemanha Ocidental.

        Mas tudo bem, é que eu gosto de ir longe nas alegorias…

    • vilarnovo
      maio 26, 2010 às 10:50 am

      Agora entendi… realmente não foi essa intenção que eu quis dar ao texto… foi apenas uma comparação econômica.

  3. maio 26, 2010 às 11:28 am

    Pablo,

    Parece que você está empolgado com as declarações a respeito da autoria nortecoreana do “ataque”.

    Antes de especular sobre a autoria da “ordem de ataque” é necessário, claro, analisar a motivação, a veracidade e as “provas” apresentadas, que não passam de pedaços de metais atribuidos ao país do norte.

    Navios brasileiros foram afundados, a marinha alemã foi acusada e serviram de argumento para forçar a adesão brasileira aos aliados na 2ª Guerra.

    O afundamento do barco coreano serve perfeitamente, como mencionei no post sobre o Irã, como ‘moeda de troca’ a respeito das sanções e ataques articulados.

    • vilarnovo
      maio 26, 2010 às 12:35 pm

      Nada, não foram apenas “pedaços de metais” foram parte de torpedos. Essas partes são relativamente fáceis de serem identificadas.

      Sobre o afundamento dos navios brasileiros há na internet registros completos dos U-boats que patrulhavam a costa brasileira inclusive com os registros dos ataques e a tonelagem afundada, o U-boat que realizou o ataque e o comandante da embarcação. Não foi um ou dois navios. Foram 30 navios completando mais de 120 mil toneladas. Para mim isso é justificativa suficiente.

      O melhor site para conhecer é o http://www.uboat.net

      Não interessa à Coréia do Sul uma guerra, muito menos sanções econômicas, mas é a única forma de “revide” que existe fora o conflito armado. Além dos custos envolvidos que acabariam com a economia sul coreana, mesmo uma guerra convencional traria um custo enorme de vidas à população de Seul. Existe milhares de canhões apontados para a capital sul coreana que iriam dizima-la.

      As relações entre as duas coréias não estavam ruins, houve muito avanço. Esse evento de nada serve para os dois países, daí a preocupação de quem ter ordenado o ataque.

      Não tenho dúvidas alguma que tenha sido efetuado por um minissubmarino norte talvez da classe Sang-O.

  4. maio 27, 2010 às 2:42 pm

    Pablo,

    Apenas considero um pouco cedo para se ter certezas acerca do ataque, qual sua modalidade e, mais ainda, o equipamento supostamente utilizado.

    Você afirma que, claro, eventual guerra na região não interessa a nenhuma das Coréias. Concordo integralmente.

    Então a quem interessaria um conflito, seja para vender armamentos, para ampliar questões geopolíticas, garantir matérias-primas ou acelerar certos setores econômicos combalidos ?

    A resposta à pergunta acima permite formular hipóteses mais consistentes a respeito da celeuma.

    • vilarnovo
      maio 27, 2010 às 3:06 pm

      No post eu coloquei algumas possibilidades. Acho, sinceramente, que esse ataque é mais coisa da elite militar norte coreana do que qualquer coisa. Quem vende os armamentos à Coréia do Norte é a China. Mas também acho que os chineses preferem a península estavel que em conflito. Sabe que muitas pessoas do norte cruzariam a fronteira, sabe que os gastos para manter uma guerra seriam altos.

      Aos americanos também não. Estão mais enrolados que qualquer coisa. Isso sem contar que para todos os efeitos as coréias ainda estão em estado de guerra e isso envolveria a ONU pois as tropas que estavam na guerra estavam sob a chancela das Nações Unidas.

      É um rolo só. Mas acho muito improvável que isso acabe em conflito. Mais provável é que sejam feitas algumas sanções leves pois a China não irá concordar com nada muito pesado e a vida irá continuar.

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