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Israel, Estado sitiado

junho 11, 2010 4 comentários

O que eu gostaria de ter dito sobre o caso já foi dito por Bernard-Henri Lévy e publicado no New York Times. Nada mais a acrescentar.

Israel, Estado sitiado

Bernard-Henri Lévy

 Tal como disse no dia em que aconteceu, durante um acirrado debate em Tel Aviv com um dos ministros do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi estúpida a forma como se atacou o Mavi Mármara e sua flotilha diante das costas de Gaza.

Minha posição não mudou. Dito isto, a onda de hipocrisia, má-fé e desinformação que se estendeu pela mídia mundial, como ocorre cada vez que o Estado judeu se equivoca, de forma alguma é aceitável.

A descrição muito comum de um “bloqueio” imposto unicamente por Israel, quando de fato foi exercido por Israel e Egito, duas nações que compartilham a fronteira com Gaza, só pode ser descrita como desinformação. O Egito, é claro, aprecia que alguém mais contenha a influência dessa extensão armada, essa base avançada e talvez algum dia esse porta-aviões para o Irã na região.

Aqui na França, a representação de um bloqueio “total e impiedoso” (segundo um editorial de Laurent Joffrin publicado em 5 de junho no jornal “Libération”) e a ideia de que Israel tomou Gaza como refém e pôs “em perigo a humanidade” (assinalada no mesmo dia em “Le Monde” por Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro francês) também são enganosas.

Tampouco devemos nos cansar de lembrar aos demais que o bloqueio inclui unicamente armas e materiais necessários para fabricá-las.

Não impede a chegada dia a dia, via Israel, de cem a 120 caminhões de alimentos, materiais médicos e outros produtos humanitários. A humanidade não está “em perigo” em Gaza, e é mentira dizer que as pessoas “morrem de fome” nas ruas da cidade de Gaza.

É discutível se o bloqueio militar é a melhor forma de enfraquecer o governo islâmico do primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniye.

Mas este fato é inquestionável: os israelenses que operam dia e noite os postos de controle entre os territórios são os primeiros a fazer uma distinção essencial entre o regime que buscam isolar e a população que procuram não penalizar.

Neste sábado foi inspecionado outro navio, mais uma vez patrocinado pelo movimento Gaza Livre, sem um só rastro de violência, e sua carga de ajuda está pronta para ser distribuída entre seus destinatários.

Mas o fato de que o Hamas esteja bloqueando essa ajuda no ponto de controle Kerem Shalom, deixando que apodreça lentamente, enfrenta um silêncio mundial.

Devem se desfazer de qualquer mercadoria que tenha passado pela alfândega judia, afirmam. E jogar fora os brinquedos enviados da Europa porque passaram horas demais no porto israelense de Ashdod. Afinal, o desejo das crianças de Gaza, que se transformaram em pouco mais que escudos humanos para o bando islâmico que tomou o poder à força há três anos, é a última coisa que os preocupa.

Mas quem diz isso?

Quem mostra a menor indignação?

“Libération” publicou recentemente este título terrível: “Israel, Estado pirata”. Se as palavras ainda significam algo, sua única intenção é deslegitimar o Estado hebreu.

Quem se atreve a dizer que se há um sequestrador em Gaza, alguém que inescrupulosamente se aproveita do sofrimento (em suma, um pirata), não é Israel mas o Hamas?

Ainda mais desinformação: o lamento dos idiotas úteis que caíram nas graças desses “humanitários” da IHH da Turquia, ou Fundação de Ajuda Humanitária, como informou “The Guardian”. Entre eles estão entusiastas da jihad e fanáticos apocalípticos anti-israelenses e antijudeus. Dias antes do ataque, alguns destes expressaram à TV Al Aqsa seu desejo de “morrer como mártires”. Como é possível que um escritor do calibre do sueco Henning Mankell possa permitir que se aproveitem dele dessa forma? Ao afirmar que está considerando não traduzir seus livros para o hebraico, mostra que esqueceu a sacrossanta distinção entre um governo estúpido ou obstinado e as massas que não se identificam com este.

Que me dizem daqueles que lamentam que Israel tenha rejeitado as exigências de uma investigação internacional solicitada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU?

Israel não quer se submeter ao tipo de investigação que resultou no famoso relatório Goldstone, encomendado depois da guerra em Gaza pelo mesmo painel compassivo cujos cinco juízes reuniram 575 páginas de entrevistas de guerrilheiros e civis palestinos, sob o olhar vigilante do Hamas, em apenas alguns dias – quatro deles nunca ocultaram sua militância antissionista.

Israel não pode consentir em outro simulacro de justiça internacional cujas conclusões seriam sabidas de antemão e que serviriam unicamente para arrastar, como sempre, para o banco dos réus a única democracia da região.

Essa patética saga se transformou em algo semelhante a uma caricatura, uma triste zombaria do destino, onde se luta contra uma democracia como se fosse uma ditadura ou um Estado fascista.

Maior motivo para resistir a esse sequestro de significados que põe à sua própria disposição a essência de uma política concebida exatamente para neutralizar a intenção de bárbaros.

Maior razão para não ceder.

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