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Israel, Estado sitiado


O que eu gostaria de ter dito sobre o caso já foi dito por Bernard-Henri Lévy e publicado no New York Times. Nada mais a acrescentar.

Israel, Estado sitiado

Bernard-Henri Lévy

 Tal como disse no dia em que aconteceu, durante um acirrado debate em Tel Aviv com um dos ministros do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi estúpida a forma como se atacou o Mavi Mármara e sua flotilha diante das costas de Gaza.

Minha posição não mudou. Dito isto, a onda de hipocrisia, má-fé e desinformação que se estendeu pela mídia mundial, como ocorre cada vez que o Estado judeu se equivoca, de forma alguma é aceitável.

A descrição muito comum de um “bloqueio” imposto unicamente por Israel, quando de fato foi exercido por Israel e Egito, duas nações que compartilham a fronteira com Gaza, só pode ser descrita como desinformação. O Egito, é claro, aprecia que alguém mais contenha a influência dessa extensão armada, essa base avançada e talvez algum dia esse porta-aviões para o Irã na região.

Aqui na França, a representação de um bloqueio “total e impiedoso” (segundo um editorial de Laurent Joffrin publicado em 5 de junho no jornal “Libération”) e a ideia de que Israel tomou Gaza como refém e pôs “em perigo a humanidade” (assinalada no mesmo dia em “Le Monde” por Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro francês) também são enganosas.

Tampouco devemos nos cansar de lembrar aos demais que o bloqueio inclui unicamente armas e materiais necessários para fabricá-las.

Não impede a chegada dia a dia, via Israel, de cem a 120 caminhões de alimentos, materiais médicos e outros produtos humanitários. A humanidade não está “em perigo” em Gaza, e é mentira dizer que as pessoas “morrem de fome” nas ruas da cidade de Gaza.

É discutível se o bloqueio militar é a melhor forma de enfraquecer o governo islâmico do primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniye.

Mas este fato é inquestionável: os israelenses que operam dia e noite os postos de controle entre os territórios são os primeiros a fazer uma distinção essencial entre o regime que buscam isolar e a população que procuram não penalizar.

Neste sábado foi inspecionado outro navio, mais uma vez patrocinado pelo movimento Gaza Livre, sem um só rastro de violência, e sua carga de ajuda está pronta para ser distribuída entre seus destinatários.

Mas o fato de que o Hamas esteja bloqueando essa ajuda no ponto de controle Kerem Shalom, deixando que apodreça lentamente, enfrenta um silêncio mundial.

Devem se desfazer de qualquer mercadoria que tenha passado pela alfândega judia, afirmam. E jogar fora os brinquedos enviados da Europa porque passaram horas demais no porto israelense de Ashdod. Afinal, o desejo das crianças de Gaza, que se transformaram em pouco mais que escudos humanos para o bando islâmico que tomou o poder à força há três anos, é a última coisa que os preocupa.

Mas quem diz isso?

Quem mostra a menor indignação?

“Libération” publicou recentemente este título terrível: “Israel, Estado pirata”. Se as palavras ainda significam algo, sua única intenção é deslegitimar o Estado hebreu.

Quem se atreve a dizer que se há um sequestrador em Gaza, alguém que inescrupulosamente se aproveita do sofrimento (em suma, um pirata), não é Israel mas o Hamas?

Ainda mais desinformação: o lamento dos idiotas úteis que caíram nas graças desses “humanitários” da IHH da Turquia, ou Fundação de Ajuda Humanitária, como informou “The Guardian”. Entre eles estão entusiastas da jihad e fanáticos apocalípticos anti-israelenses e antijudeus. Dias antes do ataque, alguns destes expressaram à TV Al Aqsa seu desejo de “morrer como mártires”. Como é possível que um escritor do calibre do sueco Henning Mankell possa permitir que se aproveitem dele dessa forma? Ao afirmar que está considerando não traduzir seus livros para o hebraico, mostra que esqueceu a sacrossanta distinção entre um governo estúpido ou obstinado e as massas que não se identificam com este.

Que me dizem daqueles que lamentam que Israel tenha rejeitado as exigências de uma investigação internacional solicitada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU?

Israel não quer se submeter ao tipo de investigação que resultou no famoso relatório Goldstone, encomendado depois da guerra em Gaza pelo mesmo painel compassivo cujos cinco juízes reuniram 575 páginas de entrevistas de guerrilheiros e civis palestinos, sob o olhar vigilante do Hamas, em apenas alguns dias – quatro deles nunca ocultaram sua militância antissionista.

Israel não pode consentir em outro simulacro de justiça internacional cujas conclusões seriam sabidas de antemão e que serviriam unicamente para arrastar, como sempre, para o banco dos réus a única democracia da região.

Essa patética saga se transformou em algo semelhante a uma caricatura, uma triste zombaria do destino, onde se luta contra uma democracia como se fosse uma ditadura ou um Estado fascista.

Maior motivo para resistir a esse sequestro de significados que põe à sua própria disposição a essência de uma política concebida exatamente para neutralizar a intenção de bárbaros.

Maior razão para não ceder.

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Categorias:Política
  1. junho 11, 2010 às 6:59 pm

    São poucos os intelectuais que tem a coragem de dizer o que disse Henry Lévy nesse artigo. Outro dia o Saramago no Blog dele teceu elogios ao Henning Mankell pelo fato dele estar no Mavi Mármara. E talvez eu tenha perdido 14 minutos da minha vida assistindo ao vídeo da brasileira coreana americana acerca do episódio do navio interceptado por Israel. Outro personagem do episódio é o premiê turco, o Erdogan, como informa o Jorge Zaverucha em artigo que publiquei no depósito e que saiu na Folha e que diz isso:

    Foi a organização não governamental turco-islâmica IHH (Insani Yardim Vakfi, Fundo de Ajuda Humanitária) quem criou a ideia da “flotilha da paz”.

    O Instituto de Estudos Internacional da Dinamarca afirmou, em 2006, que a IHH manteve ligações com a Al Qaeda e com outras redes que atuam na guerra santa islâmica internacional. A IHH foi banida pelas autoridades israelenses.

    Frise-se que Egito, também, fecha sua fronteira terrestre com Gaza, não permitindo sequer ajuda humanitária, mas não houve qualquer crítica ao governo egípcio por parte do IHH.

    Israel propôs que a ajuda humanitária fosse desembarcada e depois levada para Gaza. Cimento, por exemplo, é proibido, pois pode ser usado na construção de túneis para contrabando de armamento.

    Israel solicitou à flotilha que uma carta fosse entregue ao soldado israelense que se encontra sob o poder do Hamas -que, por sinal, nunca permitiu uma visita da Cruz Vermelha Internacional ao mesmo.

    Em vão. O propósito da flotilha era criar um embaraço a Israel. E foi muito bem-sucedida.

    O bloqueio naval israelense encontra amparo na lei internacional.

    Bloqueios foram utilizados na Guerra do Vietnã e na Guerra do Golfo. Israel está em conflito armado com o Hamas, que costumava ser abastecido por armas vindas do Irã, como o míssil iraniano de longo alcance Fajr-5, por via marítima.

    A abordagem aos barcos de bandeira turca também é respaldada pelo Manual de San Remo de Direito Internacional, de 12 de junho de 1994. O artigo 98 justifica a tentativa de tomada de poder das embarcações em águas internacionais, desde que haja fundamento para acreditar que elas violarão o bloqueio naval.

    Tudo indica que a decisão israelense de uso da força foi uma mensagem enviada ao Irã. Coincidência ou não, na semana passada, o “Sunday Times” noticiou a decisão israelense de colocar continuamente submarinos nucleares no golfo Pérsico. A grande falha foi operacional.

    A inteligência naval israelense teve tempo suficiente para obter informações fidedignas sobre quem estava no Mavi Marmara, o único dos seis navios a não obedecer a ordens de parar.

    Os equipamentos, a tática e o número dos participantes foram mal calculados. Erros inadmissíveis em uma tropa de elite.

    Nove mortos e uma severa derrota midiática para Israel. Do ponto de vista estratégico, o governo israelense espera que o presidente iraniano Ahmadinejad tenha entendido a mensagem.

  2. André
    junho 17, 2010 às 2:48 pm

    Não sei o suficiente sobre a questão para contestar ou confirmar o que diz o post. Mas no IG saiu uma matéria dizendo que Israel vai aliviar o bloqueio, se a matéria estiver correta, a atual situação não deve ser tão tranquila como diz o post. Se Israel tivesse esperado os navios entrarem em águas territoriais (mesmo que de um região ocupada) a questão teria ganho outras nuances. Do jeito que fizeram, ficou complicado.

    • vilarnovo
      junho 17, 2010 às 5:40 pm

      Com certeza André. Que a operação foi desastrada de um ponto de vista operacional não há a menor dúvida.

  3. Werner
    janeiro 24, 2011 às 2:58 pm

    Apenas lembrando, o Juiz Goldstone é judeu !!! Interessante as razões apontadas por Israel quando criticam um juiz internacional.

    Aliás, neste momento todos os judeus em todo o mundo se esquecem das regras internacionais, a luz do Direito Internacional que afirmam estarem seguindo … principalmente os artigos 47. 67. 69. 93. 94. 95. 101. 102 do Manual Para Operações Militares Navais de SAN REMO/ 1994.

    Direito Internacional é o que está escrito e não o que sai da boca de infames que distorcem a verdade e os fatos com jogos de palavras e sofismas. O bloqueio em si é ilegal, o Manual diz … está escrito e deve ser cumprido, o problema é quando alguém diz que Israel está errado, aí aparecem os porretes de auschwitz, anti-semitismo, nazismo e outras formas de difamação pública e gratuita.

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