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Cora Ronai manda o recado.


Muito bom estar ao lado de pessoas como a Cora Ronai:

Não quero falar sobre isso

Na quarta-feira passada, logo cedo, mandei a crônica para o jornal, como sempre faço. Continuava contando o que vi na península escandinava, lugar menos misterioso e atraente do que a Índia, meu penúltimo destino de férias, mas não menos estranho, por ser, no todo e nas muitas partes, o exato oposto do Brasil.

Mais tarde, lendo o jornal cheio de notícias sobre a campanha política, me veio uma certa sensação de inadequação por estar falando de algo tão distante, em todos os sentidos. Acontece, contudo, que o cronista é, antes de tudo, um ser humano — e o ser humano que assina esta crônica anda sem coração ou mente para a “política” que se pratica no país.

— Mas você não vai falar nada de nada sobre a campanha? – perguntou a Bia, quando conversamos sobre o assunto.

— Não vou não. Nunca vi uma campanha tão feia, tão mentirosa, tão marqueteira. Além disso, o que será dos leitores se todos os cronistas e colunistas escreverem sobre o mesmo tema? Não dá para ser mais objetiva do que o Merval, nem mais sarcástica do que o João Ubaldo.

Para que uma campanha política consiga motivar os eleitores, ela precisa, em primeiro lugar, ser… política! Mas não há nada de político, no antigo e nobre sentido da palavra, no que nos vem sendo apresentado. O mundo em que os candidatos vivem não guarda nenhuma relação com a realidade que pretendem administrar. Aliás, salvo a Marina, os próprios candidatos deixaram de passar qualquer impressão de autenticidade. São fantoches de si mesmo, criaturas de propaganda que apresentam não o que são, mas o que gostariam de ser. Ou nem isso; apenas o que seus marqueteiros acham que vende melhor.

Assim, de pessoa notoriamente tida por prepotente e atrabiliária (mas diplomaticamente apresentada como “difícil”), Dilma tenta passar por senhora educada, por mãe ocasionalmente severa, mas sempre gentil e compreensiva; de oposicionista de poucos amigos, Serra pretende ser acessível, religioso, popular. Não é, não são. Isso para não falar em todo o cardume menor, salpicado de criminosos e de figuras ridículas.

O presidente, que devia pelo menos fingir que respeita as leis, usa sem qualquer pudor a máquina do governo, que há tempos deixou de ser para todos e transformou-se em criminosa ferramenta partidária; a oposição, cheia de aspas, desvirtua um tenebroso caso de polícia para tentar ganhar no tapetão, repetindo as práticas antidemocráticas do PT.

Cadê a política nisso?! Cadê os projetos, cadê as propostas para a educação, base de tudo, que está indo para o brejo à velocidade da luz?

* * *

Durante os governos que antecederam a Era Lula, o PT fez a oposição mais cerrada e hidrófoba que já se viu. Bastava uma idéia ser apresentada pelo governo para que a militância a estraçalhasse, como uma matilha de hienas destroça o cadáver de um antílope (vide Nat Geo Wild). Teria sido curioso ver como se portaria o PT no governo diante de uma oposição semelhante; mas, feito para governar, o PSDB nunca soube fazer oposição.

Por causa disso, todos os “malfeitos” do governo Lula ficaram por isso mesmo, por “malfeitos” e “futricas menores” – e o país, que já não andava muito bem no quesito da ética, desandou de vez. A falta de moral generalizada e a pasmaceira apontada por Plinio Sampaio são os grandes legados da Era Lula, mas a responsabilidade por essa herança maldita não cabe apenas ao PT. A culpa é também dos partidos de oposição, que não conseguiram encostar ninguém contra a parede e dizer que certas coisas não se fazem.

A rigor, porém, nem sei por que estou falando nisso; eu já disse que não vou escrever sobre a campanha política. Não me reconheço no que vai pela televisão. Meu país é melhor e mais rico, mais diversificado, criativo e inteligente. E, apesar de saber que eles não vieram para cá em espaçonaves, nem surgiram por geração espontânea, continuo achando que o Brasil não merece os políticos que tem.

* * *

E mais uma vez, quando o coração anda pesado com o que acontece à nossa volta, Maria Bethânia surge no horizonte, esplendorosa, e põe os pingos nos ii, mostrando que, apesar de tudo, o Brasil tem muito bem onde se segurar. Dessa vez, na última quinta-feira, ela contou com o auxílio de uma platéia formada por alunos da rede pública de ensino, que foram ouvi-la em “Bethânia e as palavras — leituras”, espetáculo de pouco mais de uma hora de poesia.

É provável que os meninos e meninas que estavam lá nunca tenham ouvido poesia falada, mas todos entraram perfeitamente no clima do recital. Ficaram atentos e encantados, responderam com longos aplausos quando seus professores foram mencionados e, sobretudo, quando Bethânia, homenageando um antigo mestre, lembrou que ali estava uma ex-aluna do recôncavo baiano – prova de que é possível “uma boa, devida e plena educação nas escolas públicas”.

“Bethânia e as palavras” não é só um comovente (e imperdível) recital de poesia; é também um manifesto pela educação, em que são recorrentes as imagens dos cadernos, dos lápis, da leitura, do encanto pelas palavras e pelos poemas. Um manifesto, enfim, pela sensibilidade e pela delicadeza.

De tudo o que eu tenho visto e lido, é, disparado, o melhor antídoto contra a campanha eleitoral.

(O Globo, Segundo Caderno, 9.9.2010)

========

Cora, é o seguinte: enquanto não tivermos políticos como o governador de Nova Jérsei, esse país não vai para frente.

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Categorias:2010, Atualidades, Política
  1. setembro 13, 2010 às 5:50 pm

    Também ando desanimado com a politica e nessas eleições eu pareço estar completamente anestesiado. E o Brasil silencioso e sem ondas vermelhas está levando Dilma à cadeira do poder. E ninguém faz nada, porque ninguém tem saco, ninguém tem gana, ninguém tem vontade de dizer algo. Porque não existe oposição no Brasil. A oposição que existe é a da grande mídia – oligopolista por natureza – e por isso os defensores da candidatura oficial defendem propostas maquiavélicas do tipo “controle social da mídia”. Mas surgiu um fato novo envolvendo a Erenice e seu filho Israel e a comissão que se recebe por fora das empresas envolvidas. Considerando que quase 50% dos eleitores brasileiros ou são analfabetos ou semianalfabetos, que importância tem isso? E por isso meu desânimo e minha vontade anestesiada.

    • vilarnovo
      setembro 13, 2010 às 8:37 pm

      O que mais me impressiona nesse país é que não existe o poder judiciário. Onde estão os promotores públicos? Havia um que até hoje persegue um cara do PSDB e só. Ninguém inicia uma investigação séria. Se depender da policia política da PF nada irá acontecer como já vimos antes.
      Esse negócio de divisão entre poderes no Brasil não existe.

    • filipe
      setembro 18, 2010 às 12:35 pm

      E surgiu um fato novo, de como a filha do candidato Serra firmou um acordo com o Banco Central para quebrar o sigilo de 60 milhões de brasileiros; e como um candidato usou policiais federais lotados no ministério da saúde para liquidar uma candidatura que o ameaçava; e como seu próprio ministério estava cheio de escândalos de ambulâncias e sanguessugas. Mas ninguém faz nada! A polícia política foi cooptada, realmente não há divisão de poderes no Brasil…

      • Oswald
        setembro 19, 2010 às 12:40 am

        o outro fez eu também faço… Caramba, vocês vieram para acabar com isso, vocês eram os éticos…porque não investigaram durante os oito anos que estão no poder?. Obviamente não interessa, estão mas preocupados em roubar.

      • vilarnovo
        setembro 20, 2010 às 1:24 pm

        Bom, esse “fato novo” não é muito novo. É velho. E não houve acordo para “quebrar o sigilo bancário” de ninguém. A base que ficou disponível por um erro (que pode ser julgado pelo código civil e não penal) é a mesma disponível pelo SERASA por exemplo. Essa tentativa de igualar as coisas, que já não é novidade como tentaram fazer com o subordo do governo e o caixa 2 de Azeredo só cola com os ignorantes.

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