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As ferramentas da mão de obra do tráfico


Ninguém duvida que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) instaladas em áreas críticas no Rio de Janeiro foram uma evolução da estratégia no combate à criminalidade no estado. Negar aos traficantes uma área segura de onde poderiam planejar ataques e arrecadar com o tráfico de drogas é fundamental para melhorar a segurança da cidade.

Porém, as UPPs não farão milagres em curto prazo. Elas são apenas o início de um processo muito mais complicado e difícil tanto politicamente quanto economicamente. Todos sabem que o lucro do tráfico de drogas sustenta outro tipo de crime: o tráfico de armas. O poder de fogo presente nas mãos dos traficantes é tão ou mais importante que o tráfico de drogas em si. As armas são as ferramentas de trabalho da mão de obra do tráfico, é de onde o poder vem, é como conseguem dominar áreas inteiras, realizar assaltos, assassinatos e arrastões. Tudo o que estamos vendo em escalada na cidade do Rio de Janeiro.

O Brasil possui uma das legislações mais restritivas quanto ao comércio legal de armas de fogo. Porém uma lei no papel não quer dizer nada às pessoas que não tem respeito pelas leis. O cidadão comum, com o desejo de se proteger ou proteger sua família ou sua propriedade, foi o maior atingido por uma lei que nunca foi eficaz em promover aquilo a que se destina.

O problema real é que nossas fronteiras são desprotegidas de tal forma que o fluxo de armas de grosso calibre, que são proibidas aos cidadãos comuns, inunda o país com tal facilidade que como demonstrado nas escutas telefônicas realizadas pela polícia, é extremamente fácil comprar uma caixa de granadas ou outro tipo de arma de fogo. A informação que circula no Rio de Janeiro é que os traficantes que foram expulsos das favelas onde as UPPs foram instaladas só são aceitos em outras comunidades por seus comparsas caso eles levem consigo um fuzil, o que demonstra claramente a importância dessa ferramenta para o tráfico de drogas.

Esse problema já é bem conhecido das autoridades e foi investigado durante a CPI do Tráfico de Armas. Infelizmente o resultado da CPI, como várias que acontecem no Brasil, foi esquecido e não integrou nenhum planejamento de segurança pública ou foco pelo Governo Federal. A CPI demonstrou claramente o caminho que essas armas fazem até chegar aos traficantes no Rio de Janeiro, qual é sua origem, seus pontos de entrada, os atores que participam desse comércio.

Cabe ao Governo Federal, na figura dos Ministérios da Justiça e do Ministério da Defesa organizar uma política preventiva de controle das fronteiras, disponibilizando recursos tanto humano quanto material para um melhor controle fronteiriço do país. Uma proposta seria transformar a Força Nacional de Segurança em uma polícia de fronteira, atuando nos lugares conhecidos de tráfico de armas, organizando processos de inteligência com a Polícia Federal e inclusive, com as Forças Armadas já que as armas de grosso calibre são de seu uso exclusivo.

Sem que o problema do tráfico de armas seja encarado de maneira séria, como o principal vetor da violência hoje no Brasil e mais especificadamente no Rio de Janeiro, as cenas que, infelizmente, nos acostumamos a ver serão repetidas.

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  1. novembro 23, 2010 às 7:05 pm

    Prezado Sr. Pablo

    Acabei de ler este artigo no O Globo.

    Parabéns. Excelente. Até me espantei em ver crítica ao Estatuto publicado no O Globo.

    Mais uma vez, parabéns!

  2. André
    novembro 23, 2010 às 7:11 pm

    Creio que a questão do tráfico de armas está um pouco superdimensionada. Prefiro uma policia bem treinada, com um efetivo adequado, bem organizada e armada com 38, do que uma policia mal treinada, desorganizada e com poucos soldados, mas todos eles portando Glocks(?).

  3. novembro 25, 2010 às 3:50 pm

    Tenho posição semelhante à de André (comentário acima) e considero que a superdimensão do tema não se restringe ao tráfico de armas.

    Os atuais “ataques” a automóveis e seus incêndios bem parecem a repetição de”ataques” ocorridos em São Paulo há algum tempo atrás.

    É sugestivo e interessante que, apesar do propalado efetivo integral das polícias (civil e militar) cariocas estar em diligência permanente, NENHUM suposto atentado proveniente de traficantes ter sido flagrado e/ou seus autores apreendidos.

    Não é exagero, acredito, supor que os “ataques do crime organizado” são, na realidade, trama urdida justamente como pretexto da intensificação das ocupações violentas de comunidades, matanças ocorridas em alegados revides, prisões ilegais e outras barbáries cometidas por agentes do Estado.

    As UPPs, contraditórias no próprio significado da sigla, são mero artifício conjuntural e obviamente provisório; sua implantação, em princípio e pela própria natureza, NADA significa. Afinal, não existe nenhum indicativo de que qualquer UPP tenha estabelecido qualquer mudança de parâmetros nas relações polícia/comunidade.

    A atual violência verificada nas ruas cariocas, cuja autoria NÃO é comprovada, é resultado de fatores absolutamente claros; tráfico de drogas, de armas e outros delitos são resultados e não origem dos históricos problemas sociais.

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