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As Miragens de Robin Hood

março 28, 2011 1 comentário

Sempre fui um bom aluno de História. Comecei a gostar da matéria ainda no primeiro grau. Por sorte sempre tive bons professores. Geralmente uma criança começa a gostar de uma matéria específica quando o interesse é despertado por um bom profissional. Uma frase de um desses professores ficou guardada em minha mente: “História é a ciência que estuda o passado para entendermos o presente e vislumbrarmos o futuro”. Nunca me esqueci disso. Porém, como toda ciência social, a História é um tanto quanto interpretativa e pode variar de acordo com o ponto de vista do freguês. Lembro-me quando comecei a questionar a “doutrina oficial” da escola que Cuba era uma maravilha. Não conseguia entender como se um lugar é o paraíso na Terra, as pessoas queriam sair de lá e ir justamente para o lugar que era praticamente o estômago do capeta. A partir daí aprendi sempre a questionar as versões oficiais. Seja de quem for. Aprendi desde cedo a fazer algumas perguntas e a principal delas é “a quem interessa essa versão”.

O que isso tem a ver com Robin Hood? Todos nós sabemos a versão oficial da história do famoso arqueiro: “ele rouba dos ricos e dá aos pobres”. Mas isso também me incomodava toda vez que via um filme sobre ele. Em momento nenhum via Robin de Locksley (verdadeiro no me de Robin Hood) roubando de ricos para dar aos pobres. Estou enganado? Vejamos:

Robin de Locksley era rico. Filho do Barão de Locksley possuidor de vastas propriedades. Ungido de grande dever cívico (sic) Robin, contrariando seu pai, embarca nas Cruzadas de Ricardo Coração de Leão, rei inglês. Depois de se cansar de matar infiéis, Robin volta ao seu lar, apenas para encontra-lo destroçado, seu pai morto e ver sua fortuna desaparecer. O que faz Robin? Tenta reaver sua fortuna e limpar o nome de seu pai.

Durante essa busca Robin se depara com os usurpadores da riqueza e do nome de sua família. Quem são eles? Alguns pobres com raiva da fortuna dos Locksley? Os povos da floresta? Negativo. Robin se depara com o xerife de Sherwood. E qual era a função principal do xerife? Cobrar impostos. Opa! A trama se aprimora. Quer dizer então que o maior inimigo de Robin Hood era quem cobrava os impostos e não os ricos? Sim. Era.

Na verdade, como geralmente acontece com histórias e mitos, Robin Hood pode ter realmente existido. Um pesquisador chamado Joseph Hunter atribuiu a lenda de Robin Hood a Robert Hood que se tornou um fugitivo (fora da lei) por ter se rebelado juntamente com o Conde de Lancaster (outro rico) contra as cobraças abusivas de impostos realizadas pelo Príncipe João (ou João Sem Terra, apelido esse que recebeu por não ter sido agraciado com nenhuma propriedade dada a morte de seu pai Henrique II). Novamente a relação entre Robin Hood ou Robert Hood e a cobrança de impostos aparece.

No mito Robin se alia a os ladrões que viviam na floresta de Sherwood. Eles eram foras de lei. Mas por quê? Porque assaltavam ricos? Negativo. Foram considerados foras da lei por se recusarem a pagar os altos impostos cobrados pelo xerife de Sherwood. Impostos esses que eram cobrados no fio da espada, diga-se de passagem.

Finalmente Robin se apaixona por Maid Marian. Quem seria essa? Uma pobre habitante de floresta? Não. Marian era rica. Prima de Ricardo Coração de Leão. Em momento nenhum Robin roubou Marian.

Robin Hood passa 90% do filme lutando contra os cobradores de impostos. O restante passa tentando “limpar” seu nome e reaver sua fortuna.

Quem mensagem poderosa! Imaginem se ao invés de “aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres” a história de Robin Hood fosse contada como “aquele que se revoltou contra os impostos extorsivos”? Perceberam a diferença?

Alguns de vocês podem estar se perguntando: “Ora, mas quem criou o mito do bom ladrão? Daquele que rouba dos ricos para dar aos pobres”.

Ora, a quem interessa essa versão?

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A volta do carnaval de rua

Com o final do carnaval podemos fazer uma análise do que aconteceu no Rio de Janeiro em matéria da festa do Momo. De uns cinco anos para cá o carnaval de rua na cidade começou a voltar com força. Vários blocos surgiram na esteira do sucesso do Monobloco que resgatou a tradição do carnaval de rua, com as marchinas e músicas de carnaval. Antes do Monobloco o carnaval do Rio, por incrível que parece, estava sofrendo (sofrendo mesmo, nos dois sentidos) com a influência do carnaval de Salvador. Ouvia-se mais Axé do que músicas de carnaval tipicamente cariocas. O ponto mais baixo foi quando o Cordão da Bola Preta, talvez o mais tradicional bloco do Rio de Janeiro faliu e, se não me engano, chegou a perder a sua sede. As marchinas, os maxixes os sambas enredo haviam sumido. O Monobloco, com músicos competentes, trouxe de volta a bela tradição de carnaval de rua do Rio de Janeiro e começou a arrastar muita gente em seus desfiles. Outros blocos seguiram o exemplo e foram criados ou revitalizados.

As coisas mudaram tanto que hoje em dia a quantidade de cariocas que permanecem no Rio de Janeiro e evitam viajar para a região dos Lagos (Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo e etc) diminuiu tanto que muitos conhecidos me falaram que Búzios estava inesperadamente “vazia” esse ano. Enquanto isso o Rio de Janeiro explodia em carnaval, turistas e gente da própria cidade se acotovelando e brincando o carnaval nas ruas da cidade. E para melhorar, havia diversas opções de diversão. Show de música eletrônica e até rock poderia ser curtidos por aqueles que não gostam tanto de carnaval assim.

A grande vantagem do revitalizado carnaval de rua no Rio de Janeiro frente ao carnaval corporativo de Salvador ficou óbvia: o carnaval no Rio é infinitamente mais barato para o turista e para os habitantes da cidade por vários motivos.

O primeiro e mais óbvio que é de graça. Enquanto para curtir um bloco em Salvador as pessoas chegam a desembolsar cerca de mil reais por um abadá que lhe dá direito para ficar dentro do cordão de isolamento.  E isso é para um bloco, se for a mais de um os custos aumentam. Facilmente alguém que vai passar o carnaval em Salvador saindo do Rio de Janeiro chega a gastar por volta de seis mil reais. Não é nada barato. Aqui no Rio um turista pode ir a diversos blocos em um dia e não gastar nada além do seu consumo particular, não tem que comprar abadás.

Outro ponto positivo é a segurança. Conheço a mística do Rio de Janeiro assim como seus problemas reais, mas é digno de nota, que em minhas andanças carnavalescas, não presenciei nenhuma confusão e não ouvi relatos de violência. Claro que houve pequenos furtos, mas nada que fosse algo que prejudicasse a festa. Quem já foi no carnaval de Salvador sabe que quem não quer pagar os preços dos blocos e decide ficar na “pipoca” está sujeito a vários perigos.

Porém nem tudo são flores. Com o crescimento do carnaval de rua os problemas da cidade do Rio de Janeiro ficam mais expostos. O transporte público é muito precário, as linhas de metrô são insuficientes e pouco abrangentes, e houve uma falha óbvia na organização e liberação dos blocos por parte da prefeitura.

Se analisarmos os horários dos blocos podemos ver que são subsequentes, ou seja, quanto termina um, começa outro. Isso acontece principalmente na zona sul da cidade onde estão as praias mais famosas. Com isso uma pessoa vai a vários blocos no mesmo dia. Isso por um lado é bom, mas por outro mostra que a cidade não possui capacidade de absorver uma massa tão grande de pessoas se deslocando de um lado para outro e se juntando em blocos muito grandes.

O ideal seria se a prefeitura colocasse os blocos, principalmente os mais famosos como o Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor, Empolga as 9 (meu preferido), no mesmo horário. Assim as pessoas teriam que se dividir para pular em um bloco. Entendo que isso não é o ideal, mas é a melhor solução. E isso não é novidade, em Salvador já é assim com os dois circuitos do carnaval.

Outro ponto é a quantidade insuficiente de banheiros químicos. Sabemos que nunca serão suficientes, mas nesse ano me pareceu que foi pior do que o ano passado. Talvez a prefeitura não esperasse a quantidade de pessoas que pularam o carnaval no Rio, mas isso se tornou um tormento para todos. Para os foliões, para os moradores e até para a polícia que recebeu ordem de prender as pessoas que não utilizavam os banheiros químicos. Entretanto, alguns comerciantes lucraram, cobrando até cinco reais para a utilização de seus estabelecimentos. Oferta e demanda.

Apesar de tudo isso, o carnaval de rua do Rio de Janeiro está voltando a ser o melhor do país, espero que continue assim por muito tempo.

 Erraram a mão

Eu nunca confiei muito em apuração do desfile das escolas de samba no Rio. Como confiar em algo organizado, gerido e comandado por criminosos. Um dos puxadores de uma das escolas mudou seu grito inicial pedindo a soltura do presidente de sua escola que está preso sob a acusação de ser participante de uma milícia. Mas esse ano erraram a mão. Não há ninguém, fora os seus torcedores (e desconfio que muitos deles também), que ache que a Beija Flor mereceu mais uma vez ser campeã. Não que ela não estava bonita, mas suas notas em comparação com as notas recebidas pela Unidos da Tijuca e Mangueira, principalmente, não refletiam o que tinha acontecido na Marquês de Sapucaí. A Beija Flor vem se tornando a escola dos títulos contestados, já havia sido assim quando ganhou por um décimo da própria Unidos da Tijuca alguns anos atrás.

A verdade é que, na minha visão, erraram na mão na hora de colocar a mão. Da outra vez, a diferença de um décimo não foi tão escancarada, mas dessa vez todos perceberam.