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As Miragens de Robin Hood


Sempre fui um bom aluno de História. Comecei a gostar da matéria ainda no primeiro grau. Por sorte sempre tive bons professores. Geralmente uma criança começa a gostar de uma matéria específica quando o interesse é despertado por um bom profissional. Uma frase de um desses professores ficou guardada em minha mente: “História é a ciência que estuda o passado para entendermos o presente e vislumbrarmos o futuro”. Nunca me esqueci disso. Porém, como toda ciência social, a História é um tanto quanto interpretativa e pode variar de acordo com o ponto de vista do freguês. Lembro-me quando comecei a questionar a “doutrina oficial” da escola que Cuba era uma maravilha. Não conseguia entender como se um lugar é o paraíso na Terra, as pessoas queriam sair de lá e ir justamente para o lugar que era praticamente o estômago do capeta. A partir daí aprendi sempre a questionar as versões oficiais. Seja de quem for. Aprendi desde cedo a fazer algumas perguntas e a principal delas é “a quem interessa essa versão”.

O que isso tem a ver com Robin Hood? Todos nós sabemos a versão oficial da história do famoso arqueiro: “ele rouba dos ricos e dá aos pobres”. Mas isso também me incomodava toda vez que via um filme sobre ele. Em momento nenhum via Robin de Locksley (verdadeiro no me de Robin Hood) roubando de ricos para dar aos pobres. Estou enganado? Vejamos:

Robin de Locksley era rico. Filho do Barão de Locksley possuidor de vastas propriedades. Ungido de grande dever cívico (sic) Robin, contrariando seu pai, embarca nas Cruzadas de Ricardo Coração de Leão, rei inglês. Depois de se cansar de matar infiéis, Robin volta ao seu lar, apenas para encontra-lo destroçado, seu pai morto e ver sua fortuna desaparecer. O que faz Robin? Tenta reaver sua fortuna e limpar o nome de seu pai.

Durante essa busca Robin se depara com os usurpadores da riqueza e do nome de sua família. Quem são eles? Alguns pobres com raiva da fortuna dos Locksley? Os povos da floresta? Negativo. Robin se depara com o xerife de Sherwood. E qual era a função principal do xerife? Cobrar impostos. Opa! A trama se aprimora. Quer dizer então que o maior inimigo de Robin Hood era quem cobrava os impostos e não os ricos? Sim. Era.

Na verdade, como geralmente acontece com histórias e mitos, Robin Hood pode ter realmente existido. Um pesquisador chamado Joseph Hunter atribuiu a lenda de Robin Hood a Robert Hood que se tornou um fugitivo (fora da lei) por ter se rebelado juntamente com o Conde de Lancaster (outro rico) contra as cobraças abusivas de impostos realizadas pelo Príncipe João (ou João Sem Terra, apelido esse que recebeu por não ter sido agraciado com nenhuma propriedade dada a morte de seu pai Henrique II). Novamente a relação entre Robin Hood ou Robert Hood e a cobrança de impostos aparece.

No mito Robin se alia a os ladrões que viviam na floresta de Sherwood. Eles eram foras de lei. Mas por quê? Porque assaltavam ricos? Negativo. Foram considerados foras da lei por se recusarem a pagar os altos impostos cobrados pelo xerife de Sherwood. Impostos esses que eram cobrados no fio da espada, diga-se de passagem.

Finalmente Robin se apaixona por Maid Marian. Quem seria essa? Uma pobre habitante de floresta? Não. Marian era rica. Prima de Ricardo Coração de Leão. Em momento nenhum Robin roubou Marian.

Robin Hood passa 90% do filme lutando contra os cobradores de impostos. O restante passa tentando “limpar” seu nome e reaver sua fortuna.

Quem mensagem poderosa! Imaginem se ao invés de “aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres” a história de Robin Hood fosse contada como “aquele que se revoltou contra os impostos extorsivos”? Perceberam a diferença?

Alguns de vocês podem estar se perguntando: “Ora, mas quem criou o mito do bom ladrão? Daquele que rouba dos ricos para dar aos pobres”.

Ora, a quem interessa essa versão?

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Categorias:Política Tags:,
  1. Hevelini
    abril 11, 2011 às 10:58 am

    Sr Vilarnovo

    Seu olhar crítico é de deveras coerente e racional, algo muito bom, visto que muitos “blogs” que li sempre colocavam, mas opinião própria do que fatos. Você consegue fazer uma união dos dois pontos usando parcimônia e muito engajo lingüístico.
    Parabéns pelos seus textos que são ótimos e obrigados por compartilhar conosco suas idéias.

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