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Os indignados


O mundo tem assistido uma onda de protesto, sobretudo de jovens, em relação aos partidos políticos tradicionais. Inspirados no evento que ficou conhecido como Primavera Árabe, esses protestos levam dezenas de milhares de jovens às ruas e praças no intuito de terem suas vozes ouvidas pelos políticos que comandam seus países.

Os dois países que se destacam nesses protestos são a Espanha e a Grécia. Não é surpresa que foram dois países bem atingidos pela crise imobiliária. Apesar de terem características similares, não podemos afirmar que são iguais.

Comecemos pela Grécia. Antes de entrar na Comunidade Europeia, a Grécia era o típico país subdesenvolvido, com uma economia atrasada com intensa presença do Estado. Para poder entrar na CE, todos os países se comprometem a obedecer a regras de austeridade, ou seja, limitar sua dívida pública a um determinado percentual. O governo grego sabe-se hoje, fraudou seus números para que pudessem ser aceitos, primeiro ato que já demonstrava a incapacidade ou a vontade de não se submeter ao regime prévio de austeridade.

A Espanha também era um país atrasado, vindo de uma ditadura brutal, com economia extremamente fechada e estatizada. Após a redemocratização passou por transformações que deram um maior dinamismo a economia e não se tem notícias de fraudes em sua contabilidade para entrar na CE.

Antes de entrarem na CE cada país possuía seu próprio Risco País, que é o ágio que cada país paga para pedir dinheiro emprestado em relação aos títulos do governo americano. Como eram países ainda em desenvolvimento, com problemas estruturais econômicos, esse ágio cobrado de Espanha e Grécia era relativamente alto. Porém após serem aceitos na CE isso tudo mudou. De uma hora para outra o risco país da Espanha e Grécia passaram a ser o risco país da CE que é fortemente influenciado por países como a França e Alemanha principalmente. Ou seja, ficou bem mais barato pedir dinheiro emprestado.

E foi exatamente isso que fizeram. Tanto a Grécia quanto a Espanha foram ao mercado e realizaram vários empréstimos, aumentando bastante sua dívida. E é aqui que os casos se diferem. A Espanha optou em gastar seu dinheiro em créditos imobiliários, inflando enormemente o mercado. Isso realizou uma grande transformação na sociedade espanhola principalmente entre os mais jovens.

Colombo já dizia: "a verdade está la fora".

Na Espanha tradicionalmente os filhos moravam com seus pais até uma idade avançada, era muito caro o acesso à casa própria. Por outro lado, ainda lembrando-se da época da ditadura, a geração anterior tinha uma forte tendência de poupança. Com acesso ao crédito fácil, muitos jovens decidiram sair da casa dos pais. Ficaram conhecidos como “mil euristas”. Conseguiram empregos que pagavam por volta de mil euros e com esse salário conseguiram empréstimos (hipotecas) para pagar suas casas.

A Grécia usou o dinheiro para inflar ainda mais o seu já enorme setor público. Vários benefícios foram cedidos a essa parcela da população. Salários mais altos, aposentadorias polpudas, regimes diferenciados e etc. Em uma economia extremamente estatizada, essa parcela representa um grande grupo e consumiu grande parte da dívida adquirida. O caso grego é pior que o espanhol por dois motivos: atinge uma parcela da população com poder de mobilização e pressão maior que os jovens espanhóis e a situação grega já era ruim desde antes da entrada na CE, apenas foi mascarada pelas fraudes contábeis (algo parecido com que o governo brasileiro está começando a fazer).

O que faz os indignados gregos e espanhóis se aproximarem? Irresponsabilidade. De todos.  Por parte dos políticos que incentivaram, iludiram as pessoas com promessas de prosperidade, de dinheiro fácil, de crédito expansivo sem lhes informarem dos custos. Os jovens espanhóis cresceram nesse ambiente que é extremamente diferente do ambiente de seus pais. Querem as férias em Marbella ou Ibiza, querem ir para o País Basco surfar no verão, querem ir comer paella nas belas praias de Valência. Não querem mais morar no interior da Galícia, querem ir morar em Barcelona. Os políticos de esquerda que assumiram a Espanha após os atentados de Madri gastaram bilhões em projetos sem retorno financeiro como as usinas eólicas que podem ser muito legais e bonitas no sentido ecológico, mas são um fracasso para a economia. Hoje pagam um alto preço por essas opções.

Os funcionários públicos gregos não querem perder o que acham de “direito adquiridos”. De terem aposentadorias e benefícios bem mais altos do que é apresentado e oferecido pelo setor privado. São corporativistas como todo funcionário público do mundo.

A irresponsabilidade dessas pessoas também é flagrante. Pensaram que prosperidade à custa de endividamento e não produtivo era eterno. Porém um dia a conta sempre chega. Nós no Brasil conhecemos muito bem o resultado do “milagre econômico”. Não é novidade.

Agora essas mesmas pessoas que olharam para o lado quando seus governos se endividavam, que só queriam saber dos benefícios, ocupam as praças. Demandam “um mundo mais justo”, uma “democracia mais humana”. Mas no fundo o que querem é manter seus benefícios e vantagens. Manter a vida a qual se acostumaram. Mas no final serão derrotados pela realidade. Realidade essa que mais cedo ou mais tarde sempre bate na porta. Afinal de contas não existe almoço grátis.

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  1. junho 18, 2011 às 6:13 pm

    Eu acredito que sim é possível manter os benefícios a população espanhola e grega, não esquecendo de comentar sobre Portugal! O sistema social europeu de modo geral é muito bom, talvez o melhor do mundo. O brasileiro não sabe o real significado de sistema social, principalmente quando se fala em eficiência e eficacia neste meio. A população espanhola e grega quer apenas manter sua qualidade de vida, estes jovens não passaram pelo o que seus pais ou avós enfrentaram no passado, como guerras e crises ainda piores como a industrial passada pela a Espanha na década de 80. A população lutou pelos seus direitos adqueridos e hoje quer manter-los. Não concordo com a ultima frase exposta pelo autor “Realidade essa que mais cedo ou mais tarde sempre bate na porta. Afinal de contas não existe almoço grátis”. Nada é de graça mas as pessoas pagam impostos, nada esta sendo gratuito, acontece que o brasileiro tem a falsa ilusão de pagar seus impostos e achar que tudo esta bom, mas o brasileiro acaba se esquecendo que deve pagar ensino de qualidade para seus filhos, convenio médico, IPTU e IPVA que não serve para nada! Principalmente IPVA., pois as estradas brasileiras são lamentáveis. No Brasil se paga em dobro senhoras e senhores, os impostos servem para enriquecer os políticos. Segundo nossa constituição federal o governo não deve economizar, o governo não foi feito para economizar dinheiro, ele foi feito para representar o povo e todo o dinheiro arrecadado em impostos deve ser investido em saúde, educação, projetos sociais, etc. Quando o brasileiro vai abrir os olhos e tomar atitudes como estas que existem na Espanha e na Grécia? Ou será que vão continuar com as manifestações em prol da Maconha e da “vadia”?

    • vilarnovo
      junho 20, 2011 às 1:32 pm

      Alexandre, não tenho problema nenhum com o Estado Social desses países. A questão é a maneira que se chega a esses benefícios, se é por meio de um país produtivo ou por meio de dívida. O real problema é reduzir a questão econômica a uma questão meramente política. Por mais que os políticos inventem coisas, por mais que as pessoas considerem seus direitos, tudo isso tem um custo. E infelizmente, na maioria das vezes isso não fica claro. Por exemplo, eu não contribuo com impostos à Espanha, porém tenho direito a tratamento médico gratiuto como filho de espanhol. Isso é uma maravilha, mas custa dinheiro. Devemos saber que toda decidão econômica possui um trade-off, possui seu custo. Por melhor ou mais “social” que seja. E os políticos, por razões óbvias, não informam esse trade-off.
      Não discordo em nada do que comentou sobre os impostos e sobre o Brasil. Aqui parece que é mais importante para o governo ser dono de posto de gasolina do que exercer suas funções constitucionais com saúde, educação e segurança.

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