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Os indignados

junho 16, 2011 2 comentários

O mundo tem assistido uma onda de protesto, sobretudo de jovens, em relação aos partidos políticos tradicionais. Inspirados no evento que ficou conhecido como Primavera Árabe, esses protestos levam dezenas de milhares de jovens às ruas e praças no intuito de terem suas vozes ouvidas pelos políticos que comandam seus países.

Os dois países que se destacam nesses protestos são a Espanha e a Grécia. Não é surpresa que foram dois países bem atingidos pela crise imobiliária. Apesar de terem características similares, não podemos afirmar que são iguais.

Comecemos pela Grécia. Antes de entrar na Comunidade Europeia, a Grécia era o típico país subdesenvolvido, com uma economia atrasada com intensa presença do Estado. Para poder entrar na CE, todos os países se comprometem a obedecer a regras de austeridade, ou seja, limitar sua dívida pública a um determinado percentual. O governo grego sabe-se hoje, fraudou seus números para que pudessem ser aceitos, primeiro ato que já demonstrava a incapacidade ou a vontade de não se submeter ao regime prévio de austeridade.

A Espanha também era um país atrasado, vindo de uma ditadura brutal, com economia extremamente fechada e estatizada. Após a redemocratização passou por transformações que deram um maior dinamismo a economia e não se tem notícias de fraudes em sua contabilidade para entrar na CE.

Antes de entrarem na CE cada país possuía seu próprio Risco País, que é o ágio que cada país paga para pedir dinheiro emprestado em relação aos títulos do governo americano. Como eram países ainda em desenvolvimento, com problemas estruturais econômicos, esse ágio cobrado de Espanha e Grécia era relativamente alto. Porém após serem aceitos na CE isso tudo mudou. De uma hora para outra o risco país da Espanha e Grécia passaram a ser o risco país da CE que é fortemente influenciado por países como a França e Alemanha principalmente. Ou seja, ficou bem mais barato pedir dinheiro emprestado.

E foi exatamente isso que fizeram. Tanto a Grécia quanto a Espanha foram ao mercado e realizaram vários empréstimos, aumentando bastante sua dívida. E é aqui que os casos se diferem. A Espanha optou em gastar seu dinheiro em créditos imobiliários, inflando enormemente o mercado. Isso realizou uma grande transformação na sociedade espanhola principalmente entre os mais jovens.

Colombo já dizia: "a verdade está la fora".

Na Espanha tradicionalmente os filhos moravam com seus pais até uma idade avançada, era muito caro o acesso à casa própria. Por outro lado, ainda lembrando-se da época da ditadura, a geração anterior tinha uma forte tendência de poupança. Com acesso ao crédito fácil, muitos jovens decidiram sair da casa dos pais. Ficaram conhecidos como “mil euristas”. Conseguiram empregos que pagavam por volta de mil euros e com esse salário conseguiram empréstimos (hipotecas) para pagar suas casas.

A Grécia usou o dinheiro para inflar ainda mais o seu já enorme setor público. Vários benefícios foram cedidos a essa parcela da população. Salários mais altos, aposentadorias polpudas, regimes diferenciados e etc. Em uma economia extremamente estatizada, essa parcela representa um grande grupo e consumiu grande parte da dívida adquirida. O caso grego é pior que o espanhol por dois motivos: atinge uma parcela da população com poder de mobilização e pressão maior que os jovens espanhóis e a situação grega já era ruim desde antes da entrada na CE, apenas foi mascarada pelas fraudes contábeis (algo parecido com que o governo brasileiro está começando a fazer).

O que faz os indignados gregos e espanhóis se aproximarem? Irresponsabilidade. De todos.  Por parte dos políticos que incentivaram, iludiram as pessoas com promessas de prosperidade, de dinheiro fácil, de crédito expansivo sem lhes informarem dos custos. Os jovens espanhóis cresceram nesse ambiente que é extremamente diferente do ambiente de seus pais. Querem as férias em Marbella ou Ibiza, querem ir para o País Basco surfar no verão, querem ir comer paella nas belas praias de Valência. Não querem mais morar no interior da Galícia, querem ir morar em Barcelona. Os políticos de esquerda que assumiram a Espanha após os atentados de Madri gastaram bilhões em projetos sem retorno financeiro como as usinas eólicas que podem ser muito legais e bonitas no sentido ecológico, mas são um fracasso para a economia. Hoje pagam um alto preço por essas opções.

Os funcionários públicos gregos não querem perder o que acham de “direito adquiridos”. De terem aposentadorias e benefícios bem mais altos do que é apresentado e oferecido pelo setor privado. São corporativistas como todo funcionário público do mundo.

A irresponsabilidade dessas pessoas também é flagrante. Pensaram que prosperidade à custa de endividamento e não produtivo era eterno. Porém um dia a conta sempre chega. Nós no Brasil conhecemos muito bem o resultado do “milagre econômico”. Não é novidade.

Agora essas mesmas pessoas que olharam para o lado quando seus governos se endividavam, que só queriam saber dos benefícios, ocupam as praças. Demandam “um mundo mais justo”, uma “democracia mais humana”. Mas no fundo o que querem é manter seus benefícios e vantagens. Manter a vida a qual se acostumaram. Mas no final serão derrotados pela realidade. Realidade essa que mais cedo ou mais tarde sempre bate na porta. Afinal de contas não existe almoço grátis.

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Ataque do ETA muda atitude da França para o grupo terrorista

março 18, 2010 1 comentário

No que pode ser considerado uma ação totalmente equivocada, o ETA, grupo terrorista basco, matou um agente policial francês no último dia 16. A ação ocorreu quando um operativo do grupo terrorista tentou roubar uma agência de automóveis de luxo na cidade de Dammarie-lès-Lys que fica cerca de 50 km da capital francesa.

A ação contou com cerca de 10 membros do ETA e com o sequestro de um gerente da agência de automóveis. Após o roubo a polícia francesa foi alertada. Uma patrulha com dois policiais parou um dos BMW roubados. O ETA nunca utilizou automóveis de luxo e talvez a necessidade de ter que mudar suas práticas corriqueiras deveu-se à prisão do número 1 do grupo, Ibon Gogeaskoetxea poucos dias atrás. Enquanto o policial investigava o veículo encontrou vários recipientes cheios de gasolina e como achou estranho decidiu levar os suspeitos para a delegacia. Quando já havia algemado um deles outros carros do grupo apareceram e dispararam contra os policiais ferindo mortalmente o cabo Jean-Serge Nérin de 52 anos e pai de quatro filhos. Os outros membros conseguiram fugir, mas há indícios que alguns deles estão feridos.

O ataque causou uma grande comoção na França, gerando protestos e repúdio por todo o país. A verdade é que o ETA sempre utilizou a França como um território seguro. Não eram incomuns os protestos da polícia e governo espanhol por conta da leniência do combate ao grupo terrorista por parte do país gaulês.  Há mais ou menos uma década os esforços franceses se intensificaram principalmente por conta de acordos assinados no âmbito da Comunidade Europeia.

O presidente francês Nicolas Sakorsy afirmou hoje que “o ETA não terá a França como retaguarda”, dando entender que os dias de tranquilidade que os etarras possuíam na França acabaram. Afirmou, também, que a mobilização das forças policiais na França será total. O presidente do governo espanhol José Luiz Zapatero, confirmou que irá participar do sepultamento do policial francês. A polícia francesa afirmou que as investigações estão caminhando rapidamente e os participantes do ataque já foram identificados.

Mudança de atitude do governo francês

A atuação do governo francês no combate do grupo terrorista basco sempre foi alvo das críticas do governo espanhol. O argumento utilizado por Paris era que o ETA nunca havia praticado ações em território francês. Isso proporcionou um terreno para que os líderes etarras se escondessem assim como armazenar material bélico e local para planejamento de ataques. A mudança de atitude entre os dois países começou a mudar no final da última trégua em 2006. A presença da “Guardia Civil” espanhola em solo francês demonstrou uma maior cooperação entre os dois países. Em consequência, fontes na polícia francesa afirmam que o ETA está mais repartido e seus operativos se sentem mais vigiados que antigamente. Atualmente os etarras  utilizam estruturas mais instáveis, aluguéis de residências em áreas rurais e de verão por apenas uma ou duas semanas e longe do sudoeste francês. Não custa lembrar que o número 1 do ETA, Ibon Gogeaskoetxea, foi preso em solo francês na região da Normandia. Garikoitz Aspiazu, Txeroki, e seu substituto, Aitzol Iriondo, caíram no final de 2008 também longe do País Basco Francês. Os gendarmes, como são conhecidos os policiais franceses, por diversas vezes alertaram seu governo que deveriam se ocupar na perseguição dos etarras como um problema de ordem nacional, e não espanhol. Acreditam que depois do assassinato do cabo a vigilância e o combate ao ETA seja encarado de forma mais séria por Paris.