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Posts Tagged ‘Esquerda x Direita’

O jogo Esquerda x Direita

março 6, 2010 19 comentários

Sempre tive dificuldade de compreender a diferença entre esquerda e direita. É verdade que a esquerda, desde sempre, tomou para si o controle dessa definição, impondo sempre à esquerda aquilo que ela própria não considera de esquerda ou mais frequentemente tudo de ruim (vide Gustavo Corção). Por exemplo, em um dos comentários foi afirmado que “a educação sempre foi bandeira da esquerda”. E não seria da direita por quê? Quer dizer que a direita sempre se lixou para a educação? Ora, é só ver exemplos no mundo que mostram que isso esta longe de ser verdade absoluta.

O certo é que em países como o Brasil e outros na América Latina, a direita é sempre designada e nunca assumida. Resultado dos vários golpes militares que assolaram o continente principalmente durante a Guerra Fria.

Um dos aspectos que colocam por terra essa definição simplista de esquerda e direita é a economia. Muitos dos países que tiveram ditaduras militares em matéria econômica se aproximavam muito mais de preceitos econômicos de esquerda do que de direita. O nacionalismo é outra característica. Ser um nacionalista exacerbado te coloca em que lado? Direita ou esquerda? Ou em nenhum dos dois? Ou em ambos?

Meu amigo Luiz em seu excelente blog “De olho no fato” em um post sobre a Turquia comenta:

“Com relação a política interna, após o longo governo de Kemal Ataturk (1923-1938), que estabilizou e modernizou o país, voltaram a ocorrer instabilidades. De lá para cá foram 4 golpes militares bem sucedidos e diversos outros que não tiveram êxito. Regra geral, as ações dos militares tem como desculpa a luta contra a corrupção e o combate a medidas mais liberais ou anti-seculares. Ou seja, mal escondem sua ideologia de direita e ultranacionalista.”

Sinceramente não sei como ele conseguiu encaixar a direita nisso. Aparentemente ele caracteriza a direita apenas com golpes. Mas não há golpes de esquerda? E o ultranacionalismo? Não está presente também na esquerda?

Como exemplo podemos citar o pan-arabismo (pan arabismo? Panarabismo?) que foi um movimento que foi um movimento nacionalista, secular e estatizante no Oriente Médio e nasceu (ora bolas) na Turquia. Um grande representante desse movimento é o partido Baath. Sim, o mesmo partido de Saddan Husein. Agora, pergunte no Brasil se alguém acha que a ditadura de Saddan era de esquerda. Vão te chamar de louco. Porém acontece que o partido Baath possui vários acordos de cooperação com diversos partidos políticos de esquerda no Brasil como o PCdoB e com o próprio PT .

Como podemos ver essas definições simplistas não correspondem com a realidade.

Mas então não há ditaduras de direita? Claro que sim. Duas que podemos citar são as ditaduras do Chile de Pinochet em seus finais e a ditadura da Singapura. Em ambos os casos há a junção de um modelo autoritário que caracteriza uma ditadura, com conceitos econômicos de direita.

Na maior parte das outras ditaduras essa junção de fatores não acontece, como foi a ditadura brasileira, principalmente após a turma da ESG ter saído e a linha dura ter assumido. Podemos chamar de direita uma ditadura que fecha o mercado? Contrariando inclusive os interesses americanos? Que cria centenas de estatais? Que estatiza a economia?

Será que o fato dos militares terem combatido a extrema-esquerda os coloca diretamente na direita?

Logicamente não partirá da esquerda a correção desses “erros”. Obviamente isso é algo de intencional. Será muito difícil para a direita tirar esses conceitos simplistas do vocabulário usual. Mas a direita deve aprender a se defender disso, principalmente no Brasil onde ela é praticamente inexistente e mesmo assim continua sendo culpada por coisas que não fez e não faz.

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Batendo na mesma tecla (quebrada)

março 1, 2010 21 comentários

Ao analisar alguns blogs de esquerda do PT e da esquerda do PSDB percebe-se a total incapacidade destes de sair do lugar comum das propostas para o país. É um tal de subsídios pra cá, incentivos direcionados pra lá seguindo o bom e velho mercantilismo ao eleger “setores estratégicos” para serem os vencedores. Trade-off, custo de oportunidade são coisas que fogem do conhecimento básico. A profundidade dos debates é mais rasa do que a espessura de um fio de fibra óptica.

Ao que parece, o Brasil se encontra em uma posição privilegiada no mundo e estamos bem pacas. Ledo engano. O Brasil está mal e pelo visto continuará mal. A noção de governo e Estado dessas pessoas não alcança mais que as próximas eleições. O debate então gira em torno de pobrismo com desenvolvimentismo de estado.

Procure encontrar alguma coisa com reformas fiscais, ou política e ficará a ver navios. E porque eu acho que o Brasil vai mal? Alguns números são essenciais. Por exemplo, o país é um player muito acanhado no comércio exterior. Segundo a Organização Mundial do Comércio no ano de 2008 o Brasil possuía 1,2% de todas as exportações ocorridas no mundo e 1,1% das importações. Isso é a metade do que a Coréia do Sul, Hong Kong ou Singapura.

Qual o problema então? O problema é que o Brasil não consegue gerar riqueza. Simples assim. Falhamos miseravelmente no processo de desenvolver mecanismos para a geração de riquezas e as propostas da esquerda não avança um milímetro no que o país tem feito nos últimos 60 anos.

O primeiro e primordial entreve a geração de riqueza no Brasil é a educação. Em uma rápida comparação com a Coréia do Sul, descobrimos que o Brasil investe três vezes menos em educação. Enquanto o nosso país investe US$ 0,40 para cada habitante, o país sul-coreano investe US$ 1,26.

Nenhum país que conseguiu um alto desenvolvimento econômico o fez relegando a educação, que aqui é função de Estado, em um segundo plano. Porém quantos dos que se consideram de esquerda abordam esse assunto com a profundidade necessária? A educação para esquerda foi durante muito tempo um assunto mais para doutrinamento do que para o desenvolvimento econômico. Não é raro encontrar principalmente nas faculdades públicas, professores que são contra o uso da educação como forma de aprimorar e incentivar a geração de riqueza. Isso é burguês demais.

Outro entrave e o parco investimento em infraestrutura no país. Apesar de todo estardalhaço sempre quando faz uma apresentação do Orçamento da União que o governo Lula apelidou de PAC, a análise dos números demonstra de que todo o dinheiro que lá aparece, os gastos do governo federal não passam de 10%. Todo o resto é investimento privado ou estatal.

E esse é um ponto chave. Os de esquerda sempre afirmam que os investimentos das estatais são uma maneira que o governo possui para gerar desenvolvimento econômico para o país. Daí a “necessidade extrema” dessas empresas continuarem nas mãos do governo. Balela.

Pergunte a uma dessas pessoas qual o benefício econômico que a Petrobrás já trouxe para o dono da banca de jornal da esquina ou para o caixa na padaria e ficará sem resposta.

A verdade é que os investimentos das estatais beneficiam de forma direta as próprias estatais e mais ninguém. Costumam falar “há, mas geram empregos”. Lógico que geram. Aí é minha vez de perguntar: será que parariam de gerar empregos sendo privadas? Será que o exemplo da Vale não quer dizer nada?

Segundo, como a direção dessas empresas é pior que as privadas o governo faz aportes financeiros às estatais. O atual governo prepara um aporte na Petrobrás no valor de US$ 40 bilhões. De onde vem esse dinheiro? Do meu, do seu, do nosso imposto. E o que ganhamos com isso? Apenas o direito de continuar a comprar a gasolina nos postos.

Agora compare isso com o investimento em educação. Os gastos giram em torno de 4% do PIB, ou seja, pouco menos de oitenta bilhões de reais. Isso mesmo, o governo irá fazer um aporte, em uma empresa estatal de capital misto, um valor que equivale a metade de tudo que é gasto em educação no país durante um ano!

Não sei não, mas para mim as prioridades estão um pouco invertidas.

E porque isso? Porque a Petrobrás, esse exemplo de gerência estatal, não possui dinheiro par explorar o Pré-Sal. E por conta disso, pega dinheiro do nossos impostos para explorar o pré-sal, pagar altos salários e polpudas aposentadorias a seus funcionários e participar nos programas de propaganda do governo, patrocinando revistas e eventos. E também porque nossos falizes nacionalistas preferem que o petróleo fique no mar do que abrir o mercado (realmente) para outras empresas.

Todos ganham. Claro que o “todos” resume-se aos donos da Petrobrás e seus funcionários. Para o resto dos 99% dos brasileiros continuamos a comprar gasolina extremamente cara. Genial não é?

Em outro posto comento sobre os outros entraves ou as outras reformas essenciais para a geração de riqueza que passam distante do discurso da esquerda no Brasil.

Carta Capital assume o erro…

março 1, 2010 2 comentários

A Carta Capital, revista que é uma tentativa de contra ponto (contraponto, contra-ponto?) à Veja devidamente financiada por dinheiro dos nossos impostos (claro), em sua atual edição é bem interessante.

O título é bem claro:

O Estado forte de que se fala (PT e Dilma, claro) é o mesmo que contruiu o capitalismo (de Estado) brasileiro. Mas a mídia nativa (boba, feia e má) anda muito preocupada (…)

"Ser ou não ser, eis a questão"

Depois dessa capa de um dos veículos oficiosos do governo, todo esquerdista deveria fazer um mea culpa e nunca mais dizer que a Ditadura dos Militares foi uma ditadura de direita.

Combinado? Ok? Ok.

Vida que segue.

A esquerda de hoje

setembro 9, 2009 1 comentário

O jornalista Alberto Vargas Llosa, do Independent Institute, vai ainda mais longe. A existência de “capital morto”, diz ele, é apenas um reflexo de um problema muito mais amplo: a persistência de uma cultura antiquíssima, que até antecede os tempos coloniais, baseada no que ele chama de “os cinco princípios da opressão”: corporativismo (as leis não tratam de indivíduos, mas de grupos, determinados pela sua função no processo econômico), mercantilismo estatal (o Estado não é uma entidade neutra que existe para a conveniência dos governados, mas um ente onipotente que exige da sociedade que ela trabalhe para mantê-lo), privilégio (a única forma de ascenção social e enriquecimento é a obtenção de favores e benefícios especiais do Estado, normalmente concedidos a corporações específicas), transferência de renda (o Estado atua como redistribuidor compulsório de renda, tirando de certas corporações para dar a outras que momentaneamente estejam em suas graças) e lei política (a lei existe de acordo com a conveniência dos governantes, e não como princípios gerais válidos para todos; a prática de legislar em causa própria não é a exceção, mas a regra). Esses elementos aparecem, em formas diversas e em intensidades variáveis, ao longo de toda a história latino-americana. O desenvolvimentismo, diz Vargas Llosa, nada mais é do que uma das várias encarnações desses cinco princípios. E as reformas liberalizantes dos anos 90, embora saudadas à época como audaciosas e inovadoras, na verdade pouco ou nada fizeram para atacar a preeminência dos cinco princípios da opressão. Em vários casos, elas nada mais fizeram do que destituir algumas corporações e beneficiar outras, de acordo com o clássico modelo subdesenvolvido de “capitalismo bandido”. Vargas Llosa mostra que as reformas dos anos 90 não obtiveram os resultados esperados, não por serem ambiciosas demais, mas sim por não terem ido longe o suficiente.

É com esse contexto em mente que devemos encarar o recente avanço da Esquerda latino-americana. Na realidade, ela não oferece nada de novo: suas propostas, na essência, nada mais são do que a perpetuação dos cinco princípios da opressão que já existem e imperam na América Latina, apenas em nova roupagem. As demonstrações de apreço de certos membros do governo Lula pelas políticas econômicas desenvolvimentistas do regime militar, por exemplo (a começar do próprio presidente), assim como iniciativas como a tentativa de ampliação da carga tributária sobre os prestadores de serviços e micro-empresários (que atuam ao largo do Estado e representam portanto um foco potencial de resistência ao mercantilismo estatal e ao corporativismo) são exemplos claros de que as diferenças entre a esquerda atual e a “velha direita” do continente são apenas de métodos e interesses particulares, jamais de objetivos ou visão de mundo. Tal como os regimes militares que combateu, a Esquerda latino-americana é nacionalista, estatista, anti-liberal, anti-democrática e corporativista – os atores são outros, mas a concepção de mundo é a mesma. O objetivo da Esquerda é apenas perpetuar os mecanismos de opressão que acorretam a região há séculos.

Se o Brasil em particular, e a América Latina em geral, quiser realmente prosperar, precisa romper com os princípios da opressão que marcam sua história e pensamento. Existem elementos, à direita e à esquerda, que parecem entender ao menos parcialmente a necessidade premente de seguir em outra direção; mas ainda falta a visão de todo do dilema que acorrenta a América Latina. Se não rompermos com esse legado de opressão, corremos o risco de continuar como a Esquerda que agora está no poder: tropeçando em meio aos escombros de um modelo econômico falido, bradando slogans e frases de efeito que não repercutem no mundo real, e arremetendo contra inimigos imaginários tal qual um Dom Qixote moderno. Enquanto não entendermos que a solução para a América Latina é a liberdade, continuaremos a andar em falso, buscando a miragem eterna da prosperidade que nunca chega.