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O dogma dos nossos tempos – Por Frank Chodorov (Final)

setembro 7, 2009 Deixe um comentário

A frase “nós somos o governo” também é um exemplo desse pensamento.
Seu uso e aceitação mostram o quanto o coletivismo tomou as mentes
americanas neste século, chegando a abolir a tradição americana
fundamental. Quando a União foi fundada, o principal medo dos
americanos era de que o novo governo pudesse se tornar uma ameaça à
liberdade, e os constituintes se dedicaram a aliviar esse medo. Agora
crê-se que a liberdade é um prêmio que o governo concede em troca da
nossa subserviência. Essa inversão foi feita com base em um truque
semântico. A palavra “democracia” é a chave desse truque. Quando
alguém procura o significado da palavra, vê que não é exatamente uma
forma de governo claramente definida, mas uma regra para “atitudes
sociais”. Mas o que é uma “atitude social”? Colocando de lado todo o
palavrório que pudesse tentar explicar o conceito, aparentemente, ele
não é nada mais que o bom e velho majoritarismo: o que cinqüenta e um
por cento da população considerarem certo está certo, e a minoria
estará necessariamente errada. É só um novo nome para a velha ficção
da “vontade geral”. Não há espaço nesse conceito para a doutrina dos
direitos inatos; o único direito disponível para a minoria, mesmo a
minoria de uma só pessoa, é a conformidade com a “atitude social”
dominante.

Se “nós somos o governo”, então o homem que se encontra na prisão
deve culpar a si mesmo por sua condição, e o homem que obtém toda
dedução de impostos que a lei permite também está se prejudicando.
Enquanto isso pode parecer um inacreditável reductio ad absurdum, o
fato é que muitos dos que foram prejudicados por essa lógica têm se
conformado com ela. Boa parte da população desse país era de
fugitivos do regime de alistamento compulsório – que era chamado
de “czarismo” há duas ou três gerações e considerado a forma mais
básica de servidão involuntária. Agora já passamos a aceitar que um
exército com alistamento compulsório é, na verdade, um exército
democrático, composto por homens que se adequaram à “atitude social”
da época. É assim que as pessoas normalmente alistadas se consolam,
quando forçadas a interromper seu sonho de ter uma carreira. A
aceitação da obrigatoriedade do serviço militar atingiu o ponto da
resignação insconsciente da personalidade. O indivíduo, como um
indivíduo, simplesmente não existe; ele faz parte da massa.

Esse é o ápice do estatismo. É uma forma de pensar que não reconhece
nenhum ego, exceto o do coletivo. Por analogia, devemos citar a
prática pagã do sacrifício humano: quando os deuses pediam, quando o
curandeiro insistia que essa era uma condição para fazer o clã
prosperar, cabia ao indivíduo se jogar no fogo sacrificial. De certa
forma, o estatismo é um paganismo, o culto a um ídolo, algo criado
pelos homens. Sua base é puro dogma. Como todos os dogmas, está
sujeito a interpretações e racionalizações, tendo cada um deles seu
pequeno grupo de seguidores. Porém, não importa se alguém se vê como
comunista, socialista, apreciador da política do New Deal, ou
apenas “democrata”: cada uma dessas opções vêm da premissa de que o
indivíduo deva ser apenas um servo deste ídolo que é a ‘massa’. E que
sua vontade seja feita.

Ainda existem almas fortes, mesmo neste século vinte. Há alguns que
crêem, na privacidade de sua pessoa, que o coletivismo é a negação de
uma ordem mais elevada. Há não conformistas que rejeitam a noção
hegeliana de que “o Estado encarna a idéia divina na Terra”. Há
alguns que crêem firmemente que somente o homem é feito à imagem de
Deus. À medida em que esses remanescentes – esses indivíduos – ganham
entendimento e aprimoram suas explicações, o mito de que a felicidade
deve ser encontrada sob a autoridade coletiva esvaecerá na luz da
liberdade.

Tradução por Magno Karl

Este ensaio foi publicado pela primeira vez em The Freeman (Junho de
1956), sendo republicado, com pequenas alterações, como a introdução
de “The Rise and Fall of Society”.

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O dogma dos nossos tempos – Por Frank Chodorov (Parte 2)

setembro 6, 2009 Deixe um comentário

O coletivismo é mais que uma idéia. Sozinha, uma idéia não é nada
mais que um brinquedo especulativo, um ídolo mental. Já que, segundo
o mito, a sociedade suprapessoal é repleta de possibilidades, o
melhor a ser feito é pôr o mito em ação, energizar sua virtude. O
instrumento para isso é o Estado, que transborda energia política e
anseia por usá-la nesta gloriosa aventura.

O estatismo não é uma invenção moderna. Mesmo antes de Platão, a
filosofia política já se preocupava com a natureza, a justiça e a
legitimidade do Estado. Porém, enquanto os pensadores especulavam
sobre o assunto, as pessoas comuns aceitaram a autoridade política
como um fato com o qual se deve conviver e pararam por aí. Apenas
recentemente (exceto, talvez, nos momentos em que a Igreja e o Estado
se uniram, sustentando a coerção política com sanções divinas) que um
grupo de pessoas tem conscientemente aceitado a tese hegeliana que
diz que “o Estado é a substância geral da qual o indivíduos não são
mais do que acidentes.” É essa visão geral do Estado como
uma “substância”, como uma realidade suprapessoal investida de uma
competência que nenhum indivíduo pode reclamar para si, que é a
característica principal do século XX.

No passado, a inclinação era ver o Estado como algo com que era
preciso lidar, mas que era completamente estranho. Convivia-se com o
Estado da melhor forma possível, temendo-o ou admirando-o, esperando-
se fazer parte dele e gozar seus privilégios ou mantê-lo distante,
como algo intocável. Alguém dificilmente consideraria o Estado a
própria sociedade. As pessoas tinham de sustentar o Estado – não
havia como evitar os impostos – e tolerar suas intervenções como
intervenções e não a base mesma da vida. O Estado também estava
satisfeito com sua posição, separado e acima da sociedade.

Atualmente, estamos dispostos a destruir qualquer distinção entre
Estado e sociedade, conceitual ou institucional. O Estado é a
sociedade; a ordem social é, na verdade, um apêndice do establishment
político, dependendo deste para a comunicação, educação, saúde,
sustento e todas as coisas que remetam à “busca da felicidade”. Em
tese, se nos basearmos nos livros de economia e ciência política,
essa integração já é perfeita. Na operação dos assuntos humanos,
embora muito se diga sobre o conceito de direitos pessoais
intrínsecos, a tendência de invocar o Estado para a solução de todos
os problemas da vida mostra o quanto já abandonamos a doutrina dos
direitos, com a dependência de si mesmo que lhe é correlativa, e
aceitamos o Estado como a realidade da sociedade. É não a teoria, mas
essa integração de fato, que distingue o século XX de seus
predecessores.

Um indicativo de quão longe essa integração já foi é o total
desaparecimento de qualquer discussão do papel do Estado enquanto
Estado – discussão da qual participaram as melhores mentes dos
séculos XVIII e XIX. As inadequações de um regime em particular, ou
de seus componentes, estão sob constante ataque, mas não há críticas
ao Estado enquanto instituição. O consenso geral é de que o Estado
funcionaria perfeitamente se as “pessoas certas” estivessem em seu
comando. Os críticos do New Deal não percebem que suas deficiências
são inerentes a qualquer Estado, sob qualquer governo, nem que quando
o establishment político obtiver força suficiente um demagogo
surgirá. A idéia de que esse aparato de poder é realmente inimigo da
sociedade, de que os interesses dessas duas instituições estão em
oposição, é simplesmente impensável. Quando mencionada, a idéia é
desqualificada como se fosse algo “fora de moda”, o que realmente é;
até a era moderna, o axioma era que o Estado, com suas tendências
perniciosas intrínsecas, exigia vigilância constante.

Algum fatos que ilustram bem o humor de nossos tempos me vêm à mente.

A expressão comum “nós devemos a nós mesmos”, em relação aos débitos
contraídos em nome do Estado, é um indicativo da tendência de
removermos de nossa consciência a linha que demarca o limite entre os
governantes e os governados. Essa não é apenas uma frase popular em
livros de economia, mas um princípio bem aceito em muitos círculos
financeiros. Para alguns banqueiros modernos, um título do governo é
pelo menos tão seguro quanto a obrigação de um cidadão particular, já
que o titulo é, na verdade, uma obrigação dos cidadãos de pagar
impostos. Esses banqueiros não fazem nenhuma distinção entre débitos
garantidos pela produção, ou por alguma habilidade produtiva, e os
débitos garantidos por alguma força política. Em última análise, um
título do governo é um título sobre a produção, então qual é a
diferença? Segundo esse raciocínio, os interesses da população, que
estão sempre concentrados na produção de bens, são colocados no mesmo
patamar que os interesses predatórios do Estado.

Em muitos livros de economia, a atitude do governo de tomar
empréstimos junto à população, abertamente ou através de pressão
junto aos bancos para que emprestem a poupança de seus clientes, é
explicada como uma transação equivalente à transferência de dinheiro
de um bolso para outro da mesma calça; o cidadão empresta a si mesmo
quando empresta ao governo. A lógica desse absurdo é que o efeito na
economia da nação é o mesmo se o cidadão ou o governo gasta esse
dinheiro. Ele simplesmente abre mão de seu direito de escolha. O fato
de que o contribuinte pode não ter interesse algum nas coisas com as
quais o governo gasta o seu dinheiro, que ele não contribuiria
espontaneamente para esse gasto, é ignorado. A idéia da “mesma calça”
permanece na identificação da amorfa “economia nacional” com o bem-
estar do indivíduo; ele é, assim, imerso na massa e perde sua
personalidade.

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O dogma dos nossos tempos – Por Frank Chodorov (Parte 1)

setembro 5, 2009 Deixe um comentário

O que a história pensará de nossos tempos só a história pode revelar.
Porém, é um bom palpite acreditar que o coletivismo será destacado
como a característica definidora do século XX. Mesmo um rápido
levantamento do tipo de pensamento desenvolvido nos últimos cinqüenta
anos mostra a preponderância de uma idéia central: de que a sociedade
é uma entidade transcendental, algo independente e maior que a soma
de suas partes, e que possui natureza e capacidades sobre-humanas.
Esta sociedade opera em um campo próprio, ética e filosoficamente, e
é guiada por princípios desconhecidos dos mortais. Assim, o
indivíduo, a unidade da sociedade, por suas limitações, não pode
julgá-la ou aplicar-lhe os mesmos critérios por que julga seu próprio
pensamento e comportamento. Ele é obviamente necessário à sociedade,
mas apenas como uma parte substituível dessa grande máquina. Assim, a
sociedade pode até ter um interesse paternal pelos indivíduos, mas
não depende deles absolutamente.

De certa forma, essa idéia tem se insinuado por quase todos os campos
do conhecimento e, como costuma acontecer com as idéias, já foi
institucionalizada. Talvez o exemplo mais visível esteja na
orientação moderna da filosofia da educação. Muitos profissionais
desta área dizem abertamente que o principal objetivo da educação não
é, como se acreditava no passado, o desenvolvimento da capacidade do
indivíduo de aprender, mas prepará-lo para ocupar uma posição
produtiva e “feliz” na sociedade. Ele deve distanciar-se de suas
inclinações para se adequar aos costumes de sua faixa etária e,
posteriormente, ao meio social no qual irá viver. Ele não é um fim em
si mesmo.

A jurisprudência também tem se aproximado desta mesma idéia,
apontando, cada vez mais, que o comportamento humano é menos fruto da
responsabilidade pessoal do que reflexo das forças sociais que atuam
sobre o indivíduo; a tendência é colocar na sociedade a culpa dos
crimes cometidos por seus membros. Esse é um dos princípios da
sociologia, cuja popularidade crescente e elevação ao estatuto de
ciência são um testemunho da influência do coletivismo em nossa
época. O cientista não é mais visto como um corajoso desbravador do
desconhecido em busca dos princípios da natureza, mas como um servo
da sociedade, à qual deve seu treinamento e sustento. Heróis e atos
heróicos têm sido rebaixados a acontecimentos acidentais do
pensamento e movimento das massas. A pessoa de capacidade superior,
o “capitão de indústria” empreendedor, o gênio inato não passam,
todos, de ficções; não somos nada além de robôs fabricados pela
sociedade. A economia é o estudo de como a sociedade se sustenta com
suas próprias técnicas e normas, e não sobre como indivíduos vivem em
busca da felicidade. A filosofia, ou o que quer que passe por ela,
fez da verdade mesma um atributo da sociedade.

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