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Caio Blinder, Veja e o Tea Party

setembro 15, 2010 Deixe um comentário

Uma boa notícia para a imprensa brasileira é a nova coluna de Caio Blinder no site da Veja. Com certeza o Caio irá elevar a qualidade do debate político. Mesmo discordando em vários pontos (por exemplo, Caio sempre foi Obama F.C.) não há dúvida que o Caio Blinde é infinitamente melhor que 99% dos colunistas brasileiros.

E como não poderia deixar de ser, já começo discordando de muita coisa em sua coluna publicada hoje (15/09). Tirando a parte do enaltecimento do fracasso de Obama (como se as promessas dele não passassem de algo mais que promessas de campanha), Caio erra feio ao comentar sobre o Tea Party. Na verdade erra quase tudo. E o principal erro é qualificar Sarah Palin como “líder” do Tea Party.

É inegável que Sarah Palin transformou-se, pelo menos para a imprensa, um rosto do movimento. Mas nem por isso ela é uma líder do mesmo. Palin e outros como Glenn Beck são aproveitadores natos. O mais importante é ganhar dinheiro e notoriedade navegando pelo Tea Party. Palin cobra cerca de 100 mil dólares por uma “apresentação” em alguma cidade (o fato de alguém querer pagar 100 mil dólares para ouvir Sarah Palin me intriga), depois levanta o circo e passa para a próxima. Glenn Beck se especializou em escrever livros.

Mas essas pessoas não representam o Tea Party. O movimento é composto por pessoas comuns, profissionais liberais que tem responsabilidades no emprego, na família, na comunidade. São pessoas que doam seu tempo livro para organizar reuniões na Igreja, em assembleias e escolas. Não ganham um centavo com isso. Não são membros de ONGs que recebem polpudas verbas governamentais como a ACORN.

Caio, e a própria Veja, os chamam de “ultraconservadores”, até mesmo confundindo-os com um partido político, não conseguem passar do lugar comum dos detratores do movimento. Caio acertadamente afirma que os EUA hoje é um país dividido. Acontece que não foi o Tea Party que fez isso. Foi a própria campanha de Obama. E falha, também, ao não identificar que Obama só foi eleito pelo voto dos independentes que agora estão migrando não para o partido republicano, mas sim para o Tea Party.

Os próprios falcões do Partido Republicano estão com medo do movimento. É lógico afirmar que o Tea Party é muito mais próximo dos Republicanos do que dos Democratas. Mas porque o chamam de “ultraconservador” de maneira errada? Foi porque nas últimas décadas o partido Republicano se aproximou muito mais dos ideias dos Democratas que foi perdendo suas características. Hoje é correto afirmar que há muito pouca diferença entre Democratas e Republicanos. Cada um busca uma centralização política, uma interferência governamental de forma diferente. Seria inimaginável algumas décadas atrás o Partido Republicano aprovar as medidas que infligiam um duro golpe nas liberdades individuais tais quais Bush realizou.

Isso não tem nada a ver com “ultraconservadorismo”. Tem a ver com diferenças de opinião. Da mesma forma que acho errado tachar Obama de socialista. Obama não é socialista, ele é corporativista até a medula. Prova disso é só avaliar a alta no preço das ações das seguradoras de saúde dada a aprovação do seu pacote de maldades.

Os Tea Parties não recebem vultosas somas em palestras, não ficam aparecendo em programas de televisão. Eles fazem o que fazem por pura devoção ao que acreditam, e não por estarem seguindo Sarah Palin (aliás, se houvesse alguém a ser seguido esse alguém seria Ron Paul e não Sarah Palin).

Portanto não adiantam querer criar uma Quimera (Sarah Palin) para depois apresentar o Belerofonte, pois mesmo se Palin foi desacreditada e desmascarada (tomara!) o movimento irá continuar a crescer e mesmo que não gostem se tornará algo de suma importância na política americana. As prévias e eleições de agora já estão mostrando isso.

A verdade é que esse chá descerá muito amargo na garganta de muitos… Sejam Democratas ou Republicanos.

Entrevista com o economista Eduardo Giannetti

março 15, 2010 7 comentários

Confesso que só li essa entrevista hoje apesar te ter sido publicada no Valor Econômico em Novembro de 2009. Ela resume bem muito do que acredito estar acontecendo no Brasil, principalmente no aspecto de poupança interna.

Outro ponto positivo foi a atuação da jornalista Ana Paula Paiva. Demonstrou conhecimento do assunto com perguntas e réplicas ao entrevistado. Muito acima da média.

Entrevista de Eduardo Giannetti ao Valor Econômico

Instituto Millenium

Ana Paula Paiva/Valor

Eduardo Giannetti: resposta à crise trouxe alívio no curto prazo, mas “implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento”O economista Eduardo Giannetti não entra na onda de euforia em relação à economia brasileira. Professor do Insper, ele reconhece que o Brasil vive um momento positivo, mas teme a repetição dos erros que marcaram boa parte da história econômica nos últimos 50 anos. “É a história de um país com a vocação do crescimento, mas sem a vocação da poupança, que tenta desesperadamente contornar essa restrição por meio de algum tipo de esperteza, que logo se mostra limitada.” Para ele, começa a se criar uma situação parecida com as observadas nos governos de Juscelino Kubitschek (1956-61) e Ernesto Geisel (1974-79).

O atalho de Juscelino foi a inflação, enquanto Geisel usou a abundância de capital externo – os petrodólares – para fazer o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), colocando o pé no acelerador num momento em que o mundo inteiro se ajustava ao choque do petróleo, lembra Giannetti. Desses dois períodos, resultaram problemas graves, que prejudicaram posteriormente a economia do país.A dúvida de Giannetti é se o Brasil terá maturidade desta vez para transformar o momento favorável “num crescimento equilibrado”. O risco, alerta ele, é viver uma espécie de surto, que se interrompe rapidamente por conta de eventuais desequilíbrios – ou monetário ou nas contas externas. Um país que poupa pouco tem dificuldade em financiar o investimento, destaca Giannetti. “O capital externo, bem aproveitado, pode ajudar esse processo, mas ele é coadjuvante. E isso tem que ser feito com muito critério, se não gera problemas de insolvência externa.”

O economista diz ainda que o ajuste brasileiro à crise, com incentivo ao consumo privado e aumento dos gastos públicos, deu alívio no curto prazo, mas implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento. “Todo esse aumento do consumo privado e do gasto corrente do governo significa uma queda importante da poupança doméstica e da capacidade de investimento no futuro próximo”, afirma ele, que destaca outra grande fragilidade brasileira: o pouco esforço na formação de capital humano, evidente no fraquíssimo desempenho de estudantes brasileiros em testes internacionais de aprendizado.

Giannetti voltou há algumas semanas de Tiradentes, em Minas Gerais, onde passou quatro temporadas neste ano para escrever o seu novo livro, que trata da “relação entre o cérebro e a mente, tangenciando em alguma coisa a neuroeconomia”. Se tudo correr conforme o planejado, sairá no primeiro semestre de 2010. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O Brasil saiu rapidamente da crise, com o mercado de trabalho passando relativamente intacto. Por que o Brasil sofreu pouco?

Eduardo Giannetti: Em parte por razões circunstanciais e em parte por razões de mérito. Uma razão pela qual o Brasil foi pouco afetado é que não é muito integrado ao fluxo global de comércio, ao contrário do Chile ou mesmo do México. O México exporta 80% do que vende para o mundo para um único mercado, que é o americano. Eles vão ter neste ano uma recessão cavalar de 7%. A robustez do mercado doméstico protegeu muito o Brasil. Nós estávamos com as contas externas em ordem, com reservas que superam nossos compromissos externos de dívida pública e privada. Nós tivemos também uma política monetária que pode ter pecado pelo exagero em alguns momentos, mas nunca errou o sinal na direção do movimento. Isso nos permitiu reduzir os juros durante uma crise internacional, coisa que não se via no Brasil há tanto tempo. Houve também uma reação de política econômica que no curto prazo trouxe grande alívio, mas deixará sequelas e problemas olhando um pouco mais à frente.

Valor: Por quê?

Giannetti: O modelo brasileiro de ajuste à mudança do cenário externo foi o estímulo ao consumo privado e um aumento do gasto público, do gasto corrente. O gasto corrente do governo já havia sido contratado antes da crise, como o aumento das aposentadorias, do salário mínimo, o reajuste do funcionalismo. Por uma coincidência, isso se materializou durante a crise. Houve um estímulo ao consumo privado por meio da redução dos impostos que incidem sobre bens de consumo duráveis, além de uma pressão política do governo para que o sistema bancário estatal aumentasse a oferta de crédito, num momento em que o setor privado se retraía. O caminho de ajuste do Brasil não foi o melhor do ponto de vista de criar condições para um crescimento sustentado mais à frente, tanto que todo esse aumento do consumo privado e do gasto corrente do governo significa uma queda importante da poupança doméstica e da capacidade de investimento no futuro próximo. Esse é o ponto que me preocupa. Nós fizemos um ajuste que dá grande alívio e conforto no curto prazo, mas implica sacrifício e perdas de crescimento potencial num segundo momento.

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