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Ataque do ETA muda atitude da França para o grupo terrorista

março 18, 2010 1 comentário

No que pode ser considerado uma ação totalmente equivocada, o ETA, grupo terrorista basco, matou um agente policial francês no último dia 16. A ação ocorreu quando um operativo do grupo terrorista tentou roubar uma agência de automóveis de luxo na cidade de Dammarie-lès-Lys que fica cerca de 50 km da capital francesa.

A ação contou com cerca de 10 membros do ETA e com o sequestro de um gerente da agência de automóveis. Após o roubo a polícia francesa foi alertada. Uma patrulha com dois policiais parou um dos BMW roubados. O ETA nunca utilizou automóveis de luxo e talvez a necessidade de ter que mudar suas práticas corriqueiras deveu-se à prisão do número 1 do grupo, Ibon Gogeaskoetxea poucos dias atrás. Enquanto o policial investigava o veículo encontrou vários recipientes cheios de gasolina e como achou estranho decidiu levar os suspeitos para a delegacia. Quando já havia algemado um deles outros carros do grupo apareceram e dispararam contra os policiais ferindo mortalmente o cabo Jean-Serge Nérin de 52 anos e pai de quatro filhos. Os outros membros conseguiram fugir, mas há indícios que alguns deles estão feridos.

O ataque causou uma grande comoção na França, gerando protestos e repúdio por todo o país. A verdade é que o ETA sempre utilizou a França como um território seguro. Não eram incomuns os protestos da polícia e governo espanhol por conta da leniência do combate ao grupo terrorista por parte do país gaulês.  Há mais ou menos uma década os esforços franceses se intensificaram principalmente por conta de acordos assinados no âmbito da Comunidade Europeia.

O presidente francês Nicolas Sakorsy afirmou hoje que “o ETA não terá a França como retaguarda”, dando entender que os dias de tranquilidade que os etarras possuíam na França acabaram. Afirmou, também, que a mobilização das forças policiais na França será total. O presidente do governo espanhol José Luiz Zapatero, confirmou que irá participar do sepultamento do policial francês. A polícia francesa afirmou que as investigações estão caminhando rapidamente e os participantes do ataque já foram identificados.

Mudança de atitude do governo francês

A atuação do governo francês no combate do grupo terrorista basco sempre foi alvo das críticas do governo espanhol. O argumento utilizado por Paris era que o ETA nunca havia praticado ações em território francês. Isso proporcionou um terreno para que os líderes etarras se escondessem assim como armazenar material bélico e local para planejamento de ataques. A mudança de atitude entre os dois países começou a mudar no final da última trégua em 2006. A presença da “Guardia Civil” espanhola em solo francês demonstrou uma maior cooperação entre os dois países. Em consequência, fontes na polícia francesa afirmam que o ETA está mais repartido e seus operativos se sentem mais vigiados que antigamente. Atualmente os etarras  utilizam estruturas mais instáveis, aluguéis de residências em áreas rurais e de verão por apenas uma ou duas semanas e longe do sudoeste francês. Não custa lembrar que o número 1 do ETA, Ibon Gogeaskoetxea, foi preso em solo francês na região da Normandia. Garikoitz Aspiazu, Txeroki, e seu substituto, Aitzol Iriondo, caíram no final de 2008 também longe do País Basco Francês. Os gendarmes, como são conhecidos os policiais franceses, por diversas vezes alertaram seu governo que deveriam se ocupar na perseguição dos etarras como um problema de ordem nacional, e não espanhol. Acreditam que depois do assassinato do cabo a vigilância e o combate ao ETA seja encarado de forma mais séria por Paris.

O assassinato de al-Mabhouh – Final

março 5, 2010 1 comentário

Segunda e final parte sobre o informe de inteligência sobre o assassinato de al-Mabhouh em Dubai.

Assassinato e Escape

Aproximadamente às 20h30min do dia 19 de janeiro, após al-Mabhouh retornar a seu hotel após um encontro, a equipe de assassinato agiu. Era importante realizar a operação em tempo e maneira que desse a maior janela de oportunidade. Eles suspeitaram que al-Mabhouh iria pernoitar no hotel, o que significa que ninguém iria dar falta dele até a próxima tarde, dando tempo suficiente para escapar do país. A equipe realizou o assassinato discretamente, com o vídeo de segurança mostrando apenas dois agentes conversando casualmente a frente do elevador (um disfarce para monitorar o hall para possíveis distrações) – ou seja, nada fora do comum. Atitude é extremamente importante, e a habilidade da equipe em agir calma e naturamente e não chamar atenção dos agentes de segurança monitorando o circuito interno de TV assegurou que o ato permaneceu secreto até a equipe de limpeza do hotel encontrou o corpo mais de 17 horas depois que toda a equipe partiu de Dubai.

A equipe de assassinato utilizaram uma técnica que aparentemente confundiram a equipe médica que examinou al-Mabhouh, atrasando o anúncio do crime em nove dias. Esse atraso deu ao time operacional tempo suficiente para apagar seus rastros, possivelmente atravessando três ou quatro fronteiras, utilizando identidades falsas e esconderijos, tornando muito difícil para as autoridades de Dubai rastrear o movimento da equipe até seus destinos finais. Essa confusão parece ter sido criada pelo uso de um relaxante muscular chamado succinylcholine (também chamado de Suxamethonium), que, se usado em grande quantidade pode causar uma parada cardíaca, dando impressão que a vítima morreu de causas naturais. A droga também possui uma meia-vida muito curta, significando que seus traços se degeneram e desaparecem pouco tempo após o uso, tornando-a ideal para operações secretas como essa.

A equipe não foi capaz de realizar a operação no completo anonimato – é virtualmente impossível operar em um ambiente moderno se deixar algum tipo de vestígio eletrônico. A polícia de Dubai foi capaz de usar os vídeos de segurança do aeroporto, hotéis e de um shopping Center para rastrear a movimentação dos agentes e estabelecer suas identidades de acordo com os passaportes que usaram. Esses passaportes, que foram descobertos fraudulentos, tinham nacionalidade do Reino Unido, Irlanda, Alemanha e França – mas eram extremamente bem feitos, somente foram descobertos após o escrutínio do vídeo de segurança; oficiais da alfândega foram incapazes de detectar a fraude na chegada ou saída dos agentes. Além disso, os cartões de crédito utilizado por diversos agentes na operação estão ligados a uma empresa chamada Payoneer. O CEO da empresa é ex mesmo das Forças de Defesa de Israel e a Payoneer possui financiamento de uma companhia sediada em Israel.

A polícia de Dubai afirmou que conseguiu recolher DNA de pelo menos um membro da equipe de assassinato e impressões digitais de vários outros, fornecendo evidências que não podem ser alteradas como passaportes. Entretanto, o DNA só é útil quando pode ser comparado com algo. Se a polícia de Dubai não conseguir ligar o DNA e as impressões digitais com alguém, essas pistas não serão de muita valia.

Os passaportes também não fornecem muitas pistas para ajudar a rastrear os suspeitos. A descoberta que passaportes falsos britânicos, irlandeses, alemães e franceses foram usados criou um problema diplomático para Israel (o Mossad está no topo da lista de suspeitos), o que aumentou o chamariz da operação consideravelmente. Esta não é a maneira que uma operação clandestina deva ser executada. Mesmo que provavelmente os agentes nunca venham a ser capturados e entregues às autoridades dos EAU, o fato de que muitos detalhes do assassinato tornaram-se públicos, coloca em risco o caráter anônimo que deveria existir nesse tipo de operação.

Potenciais Consequências

Al-Habhouh dificilmente pode ser considerado com um bom caráter. Como membro sênior do braço militar do Hamas, traficante de armas e com ligações com o Irã, ele já se encontrava nas listas de alerta de terroristas dos mesmos países que reclamaram do uso dos passaportes falsos. Indignação pública é necessária e esperada desses países para resguardar sua face diplomática, porém dificilmente terão incentivos para punir Israel, se realmente este país está por trás do ataque. A polícia de Dubai e os Emirados Árabes Unidos, que certamente estão frustrados por que não irão conseguir resolver este caso insolúvel, dificilmente sentirão falta de al-Mabhouh. Seus esforços em se mostrarem indignados com o assassinato são mais incentivados pelo desejo em mostrar ação ao mundo Árabe, onde a causa Palestina possui mais importância retórica que estratégica.

A alta complexidade envolvida no assassinato, juntamente com o profissionalismo empregado, é evidência que foi executado por uma equipe de elite que não poderia ser feito sem ter patrocinado por um país. A habilidade na coleta prévia de inteligência, a junção de uma grande e bem treinada equipe de agentes, a falsificação perfeita de passaportes, o sucesso no escape (exfiltração) da equipe – tudo isso requer um grande e caro esforço que, acreditamos, excede a capacidade de qualquer grupo terrorista não nacional. Não se pode desconsiderar que o mais impressionante aspecto da operação foi a habilidade e a atitude da equipe empregada. Todos os membros eram profissionais.

Realmente, com tanto tempo já decorrido, se a operação foi patrocinada por um país, é altamente improvável que qualquer agente envolvido seja algum dia preso. Entretanto, países de todo o mundo estão oferecendo ajuda no caso, incluindo o Reino Unido, os Estados Unidos, Canadá e Austrália. Poucos agentes desses países acreditam que algum membro da equipe será algum dia preso, porém esse não é o real motivo para participarem das investigações. O que esses agentes querem é analisar os detalhes de como o grupo de assassinato e vigilância operou. Esses detalhes são de suma importância para operações de contra inteligência em países que possuem agências de inteligência em seu solo. As informações podem fornecer pistas para casos passados e futuros, pode ser usada para criar banco de dados em operações secretas, para que se alguma dessas pessoas aparecer inesperadamente em um aeroporto, hotel ou embaixada no Reino Unido, nos Estados Unidos, Canadá ou Austrália ou em qualquer outro lugar, os alarmes possam ser soados mais rapidamente.

O assassinato de al-Mabhouh

março 4, 2010 2 comentários

Tradução de um informe de inteligência de Fred Burton e Ben West sobre o assassinato do líder do Hamas Mahmoud al-Mabhouh no dia 19 de Janeiro em Dubai. Será publicado em duas partes.

USANDO A INTELIGÊNCIA DO ASSASSINATO DE AL-MABHOUH

O assassinato do líder militante sênior do Hamas Mahmoud al-Mabhouh no dia 19 de janeiro continua gerando grande quantidade de discussão e especulação seis semanas depois do acontecido. A força policial de Dubai tem constantemente revelado novas informações quase que diariamente, o que tem feito que o assunto continue na mídia. A informação mais impressionante foi a liberação de quase 30 minutos de filmagem das câmeras de segurança que cobrem desde a chegada do grupo a Dubai, a vigilância de al-Mabhouh, o assassinato e a fuga do grupo 22 horas depois.

Pela última contagem, a polícia de Dubai afirma ter identificado 30 suspeitos de envolvimento no assassinato; aproximadamente 17 com fortes indícios de ligação com a operação através dos vídeos, ou como olheiros, organizadores ou assassinos, com os outros tendo conexões tênues baseadas em informações oriundas da polícia de Dubai. Em todo caso, a operação foi elaborada e requereu recursos e planificação de uma agência bem organizada, certamente trabalhando para algum país.

Pré-Operação

Enquanto o período de 22 horas exposto no vídeo demonstrou as capacidades táticas de vários times, dificilmente conta toda a história. Para confirmar a exata localização de al-Mabhouh no dia de se assassinato, a organização responsável pela operação teve que rastrear al-Mabhouh durante meses, senão anos. Isto só pode ser feito de três maneiras: vigilância técnica, utilizando material humano ou vigilância física.

A vigilância técnica de al-Mabhouh incluiria o monitoramento de seus emails, chamadas telefônicas e outras formas de comunicação eletrônica como transações online de cartões de crédito e reservas de viagens. Isto poderia indicar seu paradeiro presente e planos futuros, que proporcionaria uma chance para o time de assassinato antecipar sua localização. Com um grupo tão grande utilizado, uma cuidadosa coordenação e planejamento dos movimentos deve ter sido requerida para garantir que todos os membros estivessem no local sem chamar nenhuma atenção.

Porém a vigilância técnica tem suas limitações. Um agente experiente como al-Mabhouh (o qual foi alvo de duas tentativas de assassinato anos anteriores) é muito cuidadoso e deve ter precauções e limitado sua exposição eletrônica. A operação provavelmente usou material humano com laços próximos de al-Mabhouh que poderia corroborar as informações a possivelmente influenciar a movimentação do alvo, colocando-o na posição para a operação. Recursos humanos podem incluir colegas de al-Mabhouh no Hamas ou membros de grupos rivais como o Fatah (três palestinos suspeitos de serem membros do Fatah foram presos pelas autoridades de Dubai em virtude de conexão com o assassinato, indicando que esse grupo pode ter fornecido material de inteligência para a organização responsável pelo assassinato de al-Mabhouh). Outras pessoas podem ter sido recrutadas utilizando outros tipos de incentivos (incluindo dinheiro) sem saber as consequências de seu envolvimento. Tanto as operações de inteligência técnicas quanto as humanas devem ter sido dirigidas por oficiais operando fora do pais em localizações separadas do grupo operacional.

De acordo com a polícia de Dubai, a vigilância física foi conduzida por membros do time operacional durante visitas anteriores de al-Mabhouh aos Emirados Árabes Unidos. Vigilância física é uma parte crítica de qualquer ataque efetivo (sendo uma operação clandestina de inteligência ou um roubo de carro) porque fornece a oportunidade dos agentes ficarem familiarizados com o ambiente e reconhecer o alvo em seu “habitat natural”.

Depois que todo o dever de casa foi realizado para estabelecer as rotinas normais de al-Mabhouh e determinar sua localização e duração de estada em Dubai, o processo de coleta de inteligência moveu-se para a fase de execução e um time foi ativado.

A Operação

Antes da chegada de Mabhouh, os times de vigilância estabeleceram-se no aeroporto e em diferentes hotéis para ter certeza que conseguiriam obter confirmação visual do alvo. Baseado na inteligência obtida por visitas anteriores a Dubai, os planejadores colocaram times em dois hotéis aguardando por al-Mabhouh aproximadamente uma hora após sua chegada. A equipe do aeroporto começou a segui-lo assim que desembarcou, informando suas movimentações às outras equipes. Mesmo não sendo filmada, suspeitamos que uma outra equipe seguiu al-Mabhouh de carro. Para garantir o sucesso da operação, o time operacional usou grande quantidade de recursos para que o alvo nunca visse o mesmo rosto duas vezes. Quando foi estabelecido que al-Mabhouh iria ficar no Al Bustan Rotana, as equipes responderam abandonando seus outros postos e direcionando o foco para aquele hotel.

Quando al-Mabhouh foi identificado, o time “travou no alvo” e iniciaram os outros passos da operação.O primeiro time de vigilância observou al-Mabhouh se registrar e o seguiram até seu quarto, observando o número do quarto. Essa informação foi repassada a outros membros da equipe, que se registraram no quarto em frente de al-Mabhouh, o que lhes forneceu acesso direto ao alvo. A seleção desse quarto é interessante por duas razões. A primeira é que fica diretamente a frente do quarto de al-Mabhouh, dando à equipe o local perfeito para monitorar seus movimentos. Segundo, o quarto ficava diretamente atrás de uma câmera de vídeo que ficava apontada para a escada de emergência, dando condições para que a equipe de assassinato pudesse agir sem o perigo de ser filmada.

Enquanto isso, no lobby do hotel, as equipes de vigilância se alternavam no monitoramento dos movimentos do alvo dentro e fora do hotel. Em dado momento, um “olheiro” é visto seguindo al-Mabhouh na rua e informando via celular o tipo de carro em que ele embarcou. Essas equipes de vigilância, operando em duplas, usaram disfarces como chapéus, óculos escuros, barbas e roupas de ginástica para estabelecerem disfarces para a operação e mascarar suas identidades. Enquanto membros da equipe operacional foram identificados em circuitos fechados, chapéus e óculos escuros ajudaram a distorcer suas imagens e reduzir o já baixo risco de serem reconhecidos pelo alvo ou por qualquer equipe de segurança durante a operação.

Outra necessidade em uma operação como essa é a comunicação. Os vídeos de vigilância mostram as equipes envolvidas na operação usando telefones celulares para mandar mensagens de texto e comunicando-se com outros membros da equipe. De acordo com informes da polícia de Dubai, os celulares usados ligaram para um número na Áustria, provavelmente a central de suporte para a operação. Pode ter sido uma linha de conferência onde todos os membros operacionais poderiam discar para monitorar o movimento do alvo. É improvável que essa central seja na Áustria; provavelmente usou uma linha “Proxy” para mascarar sua verdadeira localização física.

Próximo: Assassinato e Escape e Potenciais Consequências.